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Ele consertou a cerca delas de graça — naquela noite, as duas irmãs brigaram para ver quem conquistaria o coração do forasteiro da serra.

PARTE 1

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— Se essa cerca cair de vez, a gente perde o gado, a terra e até o nome da família.

Catarina disse isso com as mãos tremendo de frio, segurando o mourão torto no meio do pasto encharcado, enquanto o vento cortava o rosto como lâmina. A fazenda dos Almeida, encravada na serra de Santa Catarina, já não parecia herança. Parecia uma sentença.

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O pai tinha morrido havia 3 anos, deixando dívidas, 32 cabeças de gado magras e duas filhas tentando fingir que sabiam vencer o mundo sozinhas.

Catarina, a mais velha, tinha 27 anos e carregava a fazenda nas costas. Usava calça jeans grossa, camisa de flanela, bota enlameada e as mãos calejadas de quem já tinha esquecido como era ser tratada com delicadeza.

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Júlia, de 23, era diferente. Bonita, vaidosa, de rosto fino e olhos grandes, ainda guardava dentro de si a esperança de que alguém aparecesse para tirá-la dali. Ela odiava o cheiro de curral, o frio da madrugada e a sensação de que sua juventude estava apodrecendo entre arame farpado e conta vencida.

— Você está batendo o mourão torto — Júlia reclamou, parada a alguns metros, enrolada num xale de lã.

Catarina deixou o peso de ferro cair no chão com raiva.

— Então pega o esticador de arame e ajuda.

— Eu não consigo. Meu ombro dói.

— Seu ombro só dói quando tem serviço.

Júlia apertou os lábios, ofendida, mas não se mexeu.

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A cerca arrebentada se estendia por quase 50 metros até a beira do capão de araucárias. Se o gado passasse dali, desceria para a mata e talvez nunca mais voltasse. E sem gado, não haveria dinheiro para pagar o banco, o armazém, a ração, nada.

Foi nesse momento que um homem saiu da neblina.

Ele vinha montado num cavalo baio, com uma mula carregada atrás. Usava chapéu escuro, jaqueta de lona grossa, botas gastas e uma barba fechada que escondia metade do rosto. Parecia ter sido esculpido pelo frio, pelo mato e pelo silêncio.

Catarina levou a mão ao facão preso na cintura.

O homem não sorriu. Não cumprimentou. Apenas olhou para o mourão torto, depois para os braços cansados dela.

Desceu do cavalo.

Pegou um mourão novo da pilha.

Colocou no buraco.

Levantou o peso de ferro como se aquilo não fosse nada e começou a bater.

Tum. Tum. Tum.

Cada golpe entrava reto na terra dura.

Catarina ficou sem reação. Júlia também.

— Moço — Catarina disse, desconfiada. — A gente não tem dinheiro para pagar peão.

Ele continuou batendo.

— Não pedi.

A voz dele era baixa, rouca, quase seca.

Durante 3 horas, o estranho trabalhou como se aquela cerca fosse dele. Cravou mourão, esticou arame, prendeu grampo, ajustou a linha inteira. Catarina acabou trabalhando ao lado dele em silêncio, alcançando ferramentas, puxando arame, batendo grampos. Pela primeira vez em meses, ela não sentiu que estava sozinha contra a fazenda inteira.

Júlia observava.

E quanto mais olhava, mais mudava.

O frio parecia não incomodá-la mais. Ela ajeitava o cabelo, puxava o xale de um jeito mais bonito, sorria como não sorria havia meses. A presença daquele homem trouxe para dentro daquele fim de tarde algo perigoso: possibilidade.

Quando o último arame ficou esticado, o sol já desaparecia atrás da serra.

— Obrigada — Catarina disse, ainda desconfiada. — De verdade.

Ele apenas assentiu.

— Nome é Marcos.

Montou no cavalo, pronto para seguir.

— Espera! — Júlia se adiantou. — O senhor não vai subir a estrada da serra nesse escuro. A geada vai cair forte hoje.

Marcos olhou para ela.

Júlia sorriu com doçura ensaiada.

— Tem ensopado no fogão. E o galpão está seco. Pelo menos dorme aqui esta noite.

Catarina completou, prática:

— É o mínimo pelo serviço.

Marcos olhou para o céu pesado, depois para a fumaça fraca saindo da chaminé da casa.

— Só até clarear.

Dentro da casa, o clima mudou.

Marcos ocupava espaço demais na cozinha simples. Sentou-se à mesa de madeira, tirou o chapéu, comeu de cabeça baixa, sem pressa, como homem acostumado a medir cada gesto. Catarina ficou do outro lado, ainda suja de barro, as mãos marcadas sobre a mesa.

Júlia desapareceu no quarto.

Quando voltou, estava de vestido azul claro, cabelo solto, rosto lavado e boca levemente corada. Para uma noite gelada de serra, era uma roupa absurda. Para quem queria ser vista, era perfeita.

Ela colocou um prato de pão de milho perto de Marcos.

— Não é muita coisa — disse, com voz macia. — Mas aquece.

Marcos olhou para o pão, depois para ela.

— Obrigado.

Catarina sentiu uma irritação queimando por dentro.

— Engraçado — disse. — Para puxar arame o ombro dói. Para desfilar na cozinha, melhora rápido.

Júlia endureceu o sorriso.

— Estou sendo educada.

— Você está se jogando em cima de um homem que só queria comer em paz.

O silêncio caiu pesado.

Marcos largou a colher devagar.

Júlia ficou vermelha.

— Pelo menos eu ainda lembro como ser mulher, Catarina. Você parece um capataz.

A frase atingiu como pedrada.

Catarina fechou a mão.

Marcos se levantou.

— Vou dormir no galpão.

— Não precisa — Júlia disse depressa, tocando no braço dele. — Aqui dentro está quente.

Ele olhou para a mão dela. Depois olhou para Catarina, imóvel, com o maxilar travado.

— O galpão serve.

Pegou o casaco, o chapéu e saiu para a noite fria.

A porta fechou.

O que ficou dentro da casa não foi silêncio.

Foi veneno.

E naquela mesma noite, as duas irmãs fariam algo que mudaria para sempre o que pensavam uma da outra.

PARTE 2

O fogo no fogão a lenha já estava baixo quando Júlia jogou a escova de cabelo sobre a caixa de madeira que usava como penteadeira.

— Você me humilhou na frente dele.

Catarina estava sentada na cadeira de balanço, costurando uma correia rasgada do arreio com uma agulha grossa. Puxou a linha com força.

— Eu te impedi de passar mais vergonha.

— Você não sabe nada sobre vergonha. Você virou pedra.

Catarina não levantou os olhos.

— Alguém precisava virar alguma coisa depois que o pai morreu. Você escolheu virar peso.

Júlia se levantou.

O rosto dela estava vermelho, os olhos cheios de lágrimas e raiva.

— Eu faço minha parte.

— Reclama da sua parte. É diferente.

— Você sempre faz isso. Sempre joga na minha cara que trabalha mais. Como se eu tivesse culpa de odiar esse lugar.

Catarina largou a correia no colo.

— Eu também odeio, Júlia. Só que eu acordo antes do sol mesmo odiando. Eu limpo curral odiando. Eu conto dinheiro que não existe odiando. Eu remendo cerca odiando. Porque, se eu parar, essa fazenda some.

Júlia deu um passo à frente.

— Talvez fosse melhor sumir.

A frase fez Catarina congelar.

— O quê?

— Talvez fosse melhor perder tudo e ir embora. Talvez eu não queira morrer aqui igual você, cheirando a vaca, barro e fumaça.

Catarina se levantou devagar.

— Você acha que um homem feito o Marcos vai te levar embora? Acha que ele apareceu para salvar mocinha triste? Ele é um tropeiro, Júlia. Um homem da estrada. Amanhã cedo vai embora e nem seu nome vai lembrar direito.

Júlia sorriu com crueldade.

— Ele lembrou que eu era mulher. Isso já é mais do que fez com você.

Catarina sentiu o golpe.

Júlia percebeu e continuou.

— Ele olhou para você como olha para uma cerca boa. Forte, útil, feia de tanto trabalho. Para mim, ele olhou diferente.

O tapa veio antes do pensamento.

Seco.

Alto.

Júlia cambaleou, levando a mão ao rosto.

As duas ficaram imóveis.

Catarina olhou para a própria mão, horrorizada. Aquela mão calejada, rachada, pesada. A mão que sustentava tudo também tinha acabado de ferir a única pessoa que ainda era sangue dela.

— Júlia…

— Não chega perto.

A voz da irmã saiu quebrada.

— Eu te odeio. Odeio essa fazenda. Odeio essa vida. E se ele me chamasse para ir embora amanhã, eu iria sem olhar para trás.

Júlia entrou no quarto e puxou a cortina com força.

Catarina ficou sozinha na cozinha, ouvindo o choro abafado da irmã e o vento batendo nas janelas. Pela primeira vez, a raiva deixou espaço para uma verdade que ela não queria encarar: talvez estivesse salvando a fazenda e perdendo Júlia ao mesmo tempo.

Lá fora, no galpão, Marcos estava acordado.

Ele tinha ouvido a discussão.

Tinha ouvido o tapa.

Sentado num balde virado, limpava sua faca com um pano oleado, perto de uma pequena lata com brasa. Não parecia surpreso. O mundo já tinha mostrado a ele que o desespero transforma família em inimigo.

Júlia era bonita, sim.

Mas havia nela uma fome perigosa. Não fome de comida. Fome de fuga. Ela não queria Marcos. Queria uma porta.

Catarina era diferente.

Dura demais. Orgulhosa demais. Tão acostumada a carregar peso que talvez já não soubesse receber cuidado. Mas era feita de algo que Marcos respeitava: chão, suor e palavra cumprida.

Antes da madrugada, ele selou o cavalo.

Não esperou café. Não esperou desculpas. Não esperou que as duas tentassem transformar sua presença em promessa.

Mas não foi embora sem deixar nada.

No galpão, ao lado da porta, deixou uma pilha de lenha cortada, suficiente para quase 1 semana. Ao lado, colocou um esticador de arame novo, embrulhado em pano grosso.

Quando Catarina acordou, o frio dentro da casa parecia mais pesado que de costume.

Foi ao galpão e viu a baia vazia.

O cavalo sumira. A mula também.

Marcos tinha partido.

Júlia apareceu atrás dela, enrolada no xale, o rosto ainda marcado pelo tapa.

— Ele foi embora?

Catarina olhou para a pilha de lenha.

— Foi.

Júlia engoliu seco.

— Nem se despediu.

— Homens assim não se despedem. Eles fazem o que precisa ser feito e somem.

Por 3 dias, a neve fina caiu sem parar na serra.

A casa ficou quase enterrada pelo frio. As janelas embaçaram. A comida começou a diminuir. O gado berrava no galpão, preso, faminto, batendo nas tábuas.

No segundo dia, Catarina amarrou uma corda na cintura para atravessar o pátio até o galpão. Voltou 1 hora depois quase sem sentir os pés, o cabelo coberto de gelo, o corpo tremendo.

Caiu no chão da cozinha.

— 3 bezerros morreram — ela sussurrou. — E não tem feno suficiente se eu não voltar lá hoje.

Júlia ajoelhou-se ao lado dela, tirando suas botas duras de frio.

Pela primeira vez, não reclamou.

Não chorou.

Não se fez de frágil.

Olhou para a irmã quase desmaiada e viu a verdade nua: não havia homem chegando para salvar ninguém. Não havia fuga bonita. Não havia romance no frio.

Havia apenas as duas.

— Me ensina a amarrar a corda — Júlia disse.

Catarina abriu os olhos com dificuldade.

— Você não aguenta.

Júlia pegou o casaco velho do pai na parede.

— Então eu vou aprender aguentando.

E quando abriu a porta, com a corda presa na cintura e o vento branco engolindo seu corpo, Catarina entendeu que talvez a irmã que ela julgava fraca estivesse prestes a provar o contrário.

PARTE 3

Durante 1 hora, Catarina ficou sentada no chão perto do fogão, segurando o atiçador como se fosse uma arma, olhando para a corda que desaparecia porta afora.

A corda esticava.

Afrouxava.

Esticava de novo.

Cada movimento parecia arrancar um pedaço do peito dela.

Júlia estava lá fora, no branco absoluto, enfrentando o mesmo caminho que Catarina fazia todos os dias quase sem ser vista. Pela primeira vez, o peso da fazenda não estava em apenas 1 par de ombros.

Quando a porta finalmente abriu, uma rajada de neve invadiu a cozinha.

Júlia caiu de joelhos, coberta de branco, respirando como se tivesse corrido do inferno até ali. Os lábios estavam roxos, as mãos vermelhas, os olhos lacrimejando por causa do frio.

Mas ela sorria.

Um sorriso cansado, feroz, quase bonito demais para aquele momento.

— Eu consegui — ela arfou. — Joguei feno. Quebrei o gelo do cocho com o martelo. Tranquei a porteira.

Catarina sentiu os olhos arderem.

— Boa menina.

Júlia soltou uma risada fraca.

— Mulher. Não menina.

Catarina abaixou a cabeça.

— Mulher.

As duas ficaram no chão, perto do fogão, dividindo uma caneca de café fraco requentado. Nenhuma falou do tapa. Nenhuma falou de Marcos. A tempestade tinha enterrado o orgulho junto com a estrada.

Nos dias seguintes, Júlia voltou ao galpão mais 4 vezes. Aprendeu a dar nó firme, carregar feno, quebrar gelo, medir ração. Chorou escondida quando viu um bezerro morto grudado no chão frio, mas voltou no dia seguinte mesmo assim.

Catarina também mudou.

Parou de jogar cada sacrifício na cara da irmã. Começou a explicar em vez de gritar. Mostrou onde guardava as contas, como calculava a venda do leite, quanto deviam ao banco, quanto ainda podiam negociar.

Júlia descobriu algo que doeu mais do que o frio: Catarina não era dura porque queria mandar. Era dura porque estava assustada havia 3 anos e nunca teve tempo de desabar.

Quando a neve finalmente parou, a fazenda parecia ter sido mastigada pelo inverno.

6 cabeças de gado morreram. Parte do telhado do galpão cedeu. A cerca do açude caiu. O pasto virou lama funda. O cheiro de terra molhada se misturava ao de perda.

Mas as duas continuavam ali.

De pé.

Em maio, o sol voltou com força. Não era um sol alegre. Era duro, claro, mostrando tudo o que precisava ser consertado.

Catarina estava na linha da cerca sul, cortando um pedaço de arame torcido, quando ouviu o som de cascos na lama. Não se virou de imediato. Aprendera que, no campo, primeiro se escuta. Depois se olha.

— Precisa de ajuda para esticar esse arame?

A voz fez seu corpo travar.

Ela virou devagar.

Marcos estava a poucos metros, montado no mesmo cavalo baio, mais magro, mais queimado de sol, a barba maior, os olhos fundos. A mula atrás carregava peles, ferramentas e sacos de mantimento.

Ele não parecia herói.

Parecia alguém que também quase tinha sido vencido pelo inverno.

— A cerca que você consertou segurou — Catarina disse.

— Percebi.

Ele desceu do cavalo. As botas afundaram no barro.

— O inverno foi ruim lá em cima?

— Fiquei preso quase 2 meses no mato. Comi pinhão velho, raiz e o que consegui caçar. Achei que não voltava.

Catarina sustentou o olhar.

— Por que voltou?

Marcos tirou algo da bolsa presa à sela.

Era um esticador de arame novo, pesado, bonito, de ferro forte, com cabo de madeira lisa. Não era flor. Não era presente romântico. Era ferramenta.

Era sobrevivência.

— O seu estava rachado — ele disse. — Vi naquele dia.

Catarina pegou o esticador com cuidado.

A garganta apertou de um jeito estranho.

— Você lembrou disso?

— Difícil esquecer uma mulher que bate mourão com o ombro machucado e ainda reclama que o outro está torto.

Ela quase sorriu.

— Podia ter seguido viagem.

— Podia.

— E por que não seguiu?

Marcos olhou para a casa ao longe, para o galpão remendado, para a fumaça saindo da chaminé.

— O silêncio da serra ficou estranho depois daqui.

Catarina respirou fundo.

— Eu não preciso de homem para salvar esta fazenda.

— Eu sei.

— Não preciso de capataz.

— Também sei.

— E não vou virar sombra de tropeiro nenhum.

Marcos deu um passo mais perto, sem invadir.

— Por isso eu voltei.

A resposta ficou entre os dois como brasa.

Na varanda da casa, Júlia observava.

Tinha uma cesta de roupas molhadas apoiada no quadril e o cabelo preso de qualquer jeito. Meses antes, aquela cena teria rasgado seu peito de inveja. Agora, não.

O inverno tinha queimado a menina sonhadora que achava que ser escolhida por um homem era a única saída. Júlia ainda queria ir embora da fazenda um dia, mas não como fuga desesperada. Queria estudar contabilidade na cidade, trabalhar no armazém, aprender a cuidar das próprias contas.

Ela finalmente entendeu: Marcos nunca fora o prêmio.

Ele era apenas o espelho que mostrou o que cada uma carregava por dentro.

Júlia não precisava roubar o olhar de um homem para provar valor. Catarina não precisava se transformar em pedra para merecer respeito.

Na cerca, Marcos pegou um rolo de arame e colocou no ombro.

— Tem quase 1 quilômetro caído perto do açude — ele disse.

Catarina ergueu o esticador novo.

— Eu sei.

— A luz vai embora cedo.

Ela olhou para ele.

— Então anda direito. Você pisa torto na lama.

Pela primeira vez, Marcos riu.

Não uma gargalhada. Apenas um som curto, rouco, verdadeiro.

Catarina caminhou ao lado dele.

Não atrás.

Ao lado.

Naquela tarde, Júlia desceu até a cerca levando café numa garrafa térmica. Entregou 1 caneca a Marcos sem floreio, outra a Catarina. Depois ficou alguns minutos olhando os dois trabalharem.

— Eu vou à cidade semana que vem — disse.

Catarina parou.

— Para quê?

— O Horácio precisa de alguém para anotar fiado e organizar pedido. Eu falei com ele quando fui comprar sal. Ele disse que posso tentar.

Catarina franziu a testa.

— Você falou com ele sozinha?

— Falei. E não morri.

Marcos abaixou o rosto para esconder um sorriso.

Catarina olhou para a irmã por um tempo. Havia medo em seus olhos, mas também orgulho.

— E a fazenda?

— Eu continuo ajudando. Mas não quero passar a vida inteira odiando este lugar sem construir nada meu.

Catarina engoliu seco.

Antes, teria respondido com grosseria. Teria acusado Júlia de abandono. Teria transformado medo em ataque.

Mas agora sabia o preço disso.

— Então você vai — disse. — E vai fazer direito.

Júlia sorriu.

— Vou.

As duas não se abraçaram. Não eram assim. Mas alguma coisa antiga e quebrada pareceu se encaixar.

Ao anoitecer, voltaram para casa com as botas cobertas de barro. O feijão borbulhava no fogão. O vento já não parecia tão cruel. O galpão ainda precisava de reparo, a dívida ainda existia, o banco ainda cobraria, e a vida não ficaria fácil só porque um homem voltou pela estrada.

Mas naquela mesa, pela primeira vez em anos, ninguém parecia estar esperando ser salvo.

Catarina serviu o prato de Júlia sem reclamar. Júlia empurrou o pedaço maior de carne para a irmã sem fazer discurso. Marcos comeu em silêncio, como sempre, mas agora seu silêncio não pesava.

Depois da janta, Júlia pegou o xale e saiu para a varanda. Catarina a seguiu.

As duas ficaram olhando a linha escura das araucárias contra o céu.

— Eu falei coisas horríveis naquela noite — Júlia disse.

Catarina apoiou os braços na madeira da varanda.

— Eu bati em você.

— Eu mereci?

Catarina olhou para a irmã.

— Não. Palavra nenhuma merece tapa.

Júlia respirou fundo, os olhos marejados.

— Eu tinha inveja de você.

— De mim?

— Da sua força. Eu fingia desprezar porque achava que nunca ia conseguir ser assim.

Catarina riu sem alegria.

— Eu tinha inveja de você também.

Júlia virou o rosto.

— Do quê?

— De ainda parecer mulher. De ainda saber sorrir. Eu achei que, se eu ficasse bonita ou mole por 1 minuto, tudo caía.

Júlia pegou a mão da irmã.

Era uma mão áspera, cheia de rachaduras. Mas não parecia feia naquele momento. Parecia história.

— Nada caiu porque você segurou — Júlia disse. — Mas agora segura menos sozinha.

Catarina apertou os dedos dela.

Lá dentro, Marcos mexia no fogão. Lá fora, o frio começava a descer de novo.

A fazenda ainda era dura.

A serra ainda cobrava caro.

O mundo ainda não era gentil com mulheres sozinhas.

Mas algo tinha mudado.

Antes, Catarina achava que amor era alguém chegar e consertar tudo.

Júlia achava que liberdade era fugir no cavalo de um homem qualquer.

As duas estavam erradas.

Amor, às vezes, era lenha deixada em silêncio no galpão.

Era uma irmã atravessando a neve com uma corda na cintura.

Era pedir desculpa sem saber como.

Era voltar não para salvar alguém, mas para ficar ao lado de quem já tinha aprendido a se salvar.

Na manhã seguinte, quando o sol nasceu por trás da serra, Catarina, Júlia e Marcos foram juntos até a cerca do açude.

O arame estava caído.

A terra estava pesada.

O serviço era grande.

Catarina pegou o esticador novo. Júlia segurou o rolo de arame. Marcos levantou o primeiro mourão.

E, dessa vez, ninguém estava esperando um milagre.

Só começaram a trabalhar.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.