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Riram De Gonzaga No Rio de Janeiro — A Rejeição Ao Nordestino Que Acabou Conquistando O Brasil

Parte 1
Luís Gonzaga foi jogado para fora da Rádio Nacional como se a sanfona nas costas dele fosse lixo, e o pior não foi o empurrão do segurança, foi a gargalhada de Ernesto Vila Nova atravessando o corredor como uma sentença pública.

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O ano era 1946, e o Rio de Janeiro ainda se comportava como se pudesse decidir sozinho o que era música no Brasil. Naquela tarde abafada, Gonzaga entrou pela porta dos fundos da emissora com o chapéu na mão, a sanfona no peito e uma esperança que já tinha sido ferida 2 vezes. Na primeira tentativa, em 1945, nem deixaram que passasse da portaria. Na segunda, Adalberto Fontes, músico da casa, ouviu poucos compassos e zombou com a boca cheia no refeitório.

— Isso é coisa de interior. Aqui é Rio de Janeiro.

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Na terceira vez, Gonzaga chegou até Ernesto Vila Nova, diretor artístico da Rádio Nacional, homem de terno branco, cigarro importado e uma vaidade tão grande que fazia os outros rirem antes mesmo de entenderem a piada. Na sala estavam técnicos, uma secretária e Regulo Bastos, cantor carioca esperando contrato. Gonzaga ajeitou o fole, respirou fundo e tocou o baião como quem abre uma porta antiga dentro do peito. O som saiu bruto, quente, vivo, cheio de poeira de estrada, feira, saudade, São João e fome.

Ernesto deixou tocar por 2 minutos e 18 segundos.

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Depois ergueu a mão.

— Chega.

O silêncio veio primeiro. Em seguida, o sorriso cruel.

— Isso aí é o quê, rapaz? Música ou gemido de retirante?

Um técnico riu. Regulo Bastos riu também, por covardia. A secretária abaixou os olhos. Gonzaga permaneceu parado, segurando o chapéu, enquanto Ernesto se levantava devagar, como se estivesse expulsando não apenas um homem, mas uma parte inteira do país.

— Leva esse barulho de volta pro Nordeste. Aqui a gente gosta de música, não de lamento de matuto.

O segurança tocou no braço de Gonzaga. Ele não reagiu. Apenas saiu. No corredor, uma mulher chamada dona Zefinha do Recife, cozinheira em Santa Teresa, viu tudo. Ela estava sentada com uma sacola no colo, esperando falar com um primo da limpeza. Quando Gonzaga passou por ela, seus olhos não estavam molhados, mas havia neles uma coisa pior que choro: a vergonha de quem foi ferido diante de estranhos.

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Ele caminhou 42 minutos até a pensão da Lapa. O quarto tinha 4 m por 3, uma cama de ferro, um espelho rachado e uma janela que dava para uma parede. Gonzaga encostou a sanfona na parede, não sobre a cama, como se o instrumento tivesse se tornado pesado demais para tocar. Dona Marilene Pacheco, dona da pensão, subiu às 6 da tarde com arroz, feijão, carne seca e suco de laranja. Bateu 3 vezes.

Nada.

Ela deixou a bandeja no chão e ficou escutando. Do outro lado da porta não havia soluço nem raiva. Só o fole abrindo e fechando, sem melodia, como um pulmão tentando não morrer.

Dois quartos abaixo morava Valdomiro Bezerra, carregador do mercado São Sebastião, natural de Mossoró, tocador de zabumba nas horas vagas. Ele conhecia aquele silêncio. Era o silêncio de homem nordestino engolindo humilhação na cidade grande. Subiu devagar, bateu à porta e esperou.

Gonzaga abriu.

Valdomiro entrou, sentou no chão e não perguntou nada. Por muito tempo, só ficaram ali, um diante do outro, com a sanfona encostada na parede como uma testemunha. Então Valdomiro falou baixo, sem poesia bonita, sem promessa fácil.

— Tu tá tentando agradar quem nunca teve sede, Gonzaga. Homem que nunca teve sede não sabe o valor da água.

Gonzaga olhou para ele.

— E eu vou tocar pra quem, Valdomiro? Pra parede?

— Pra quem tá morrendo de sede nesse Rio inteiro. Tem nordestino em obra, cozinha, fábrica, pensão, cais, subúrbio. Tem gente que deixou pai, mãe, filho e terra pra trás. Esse povo não precisa que Ernesto Vila Nova entenda. Precisa ouvir que ainda existe.

A frase ficou no quarto como brasa. Gonzaga pegou a sanfona, abriu o fole uma vez e fechou. Ainda não tocou. Ainda havia uma ferida bloqueando o som.

3 dias depois, dona Zefinha apareceu na porta da pensão. Tinha seguido Gonzaga à distância naquele dia da humilhação, não por curiosidade, mas por reconhecimento. Ela trazia um recado que viera de longe, atravessando conhecidos, feiras e estradas desde Exu. Era um recado de Januário, pai de Gonzaga.

— Seu pai mandou dizer que tem um homem no Rio procurando um sanfoneiro nordestino.

Gonzaga endureceu.

— Quem?

— Astério Drumon. Trabalha na Rádio Mayrink Veiga. Dizem que é do Piauí.

Ao ouvir aquele nome, Gonzaga não sorriu. Apenas olhou para a sanfona encostada na parede, como se ela tivesse acabado de responder por ele. Na manhã seguinte, foi encontrar Astério sem tirar o chapéu de couro, sem esconder o sotaque, sem pedir licença para existir. O que ele não sabia era que, naquela pequena rádio, havia um segredo capaz de virar a humilhação de Ernesto Vila Nova contra ele mesmo.

Parte 2
Astério Drumon estava na cabine de som quando viu Luís Gonzaga no corredor da Rádio Mayrink Veiga, e não precisou ouvir 1 nota para entender que aquele homem carregava o mesmo exílio que ele. Astério era de Floriano, Piauí, tinha chegado ao Rio em 1938 com uma mala pobre e uma promessa de emprego que era mentira. Dormiu semanas em banco duro, vendeu pastel, carregou gelo, aprendeu a falar mais baixo para não zombarem do sotaque, mas nunca esqueceu o som das feiras. Quando ficou diante de Gonzaga, perguntou apenas: — Tu é de onde? — Exu, Pernambuco. Astério assentiu, como se aquilo bastasse. — Então toca. Aqui mesmo. Gonzaga abriu a sanfona no corredor estreito, e o baião saiu inteiro, sem enfeite carioca, sem pedido de desculpa. Uma moça do administrativo parou. Um locutor encostou na parede. 3 funcionários esqueceram o próprio serviço. Astério fechou os olhos e ouviu como quem volta para casa depois de muitos anos. Quando a música acabou, disse: — Isso não é pra uma rádio, não. Isso é pro Brasil inteiro. Mas Astério não era diretor, não assinava contrato, não mandava na programação. O que tinha era um nome: Lindolfo Maia, pernambucano de Garanhuns, arranjador teimoso que montava uma gravadora independente numa sala alugada em Engenho Novo, com 3 microfones usados e mais dívida do que futuro. Astério levou Gonzaga até lá de bonde. No caminho, Gonzaga olhou pela janela e murmurou: — Meu pai dizia que o sertão fica onde tem nordestino com saudade. Acho que agora eu entendi. Lindolfo abriu a porta usando avental manchado de tinta. Era baixo, de bigode ralo, óculos grossos e mãos enormes. Olhou para a sanfona e não pediu teste. — Eu já ouvi falar de você. A pergunta não é se você é bom. A pergunta é se tem coragem de gravar sem cortar o que o Rio acha feio. Gonzaga respondeu: — Do jeito que é ou não tem jeito de ser. Lindolfo abriu um caderno e mostrou uma página. Ao lado do nome Luís Gonzaga estavam 6 palavras: “O homem que o Rio não quer.” Gonzaga ficou imóvel. Aquilo poderia ser insulto, mas ali soava como destino. Lindolfo fechou o caderno. — Quero 3 músicas. O sertão que dói e alegra ao mesmo tempo. Gonzaga abriu o fole. — Tenho mais de 30. As gravações começaram dias depois, numa sala quente, com parede mal pintada e fio passando pelo chão. Não havia luxo, mas havia verdade. O técnico de som, de chinelo, ouviu a primeira tomada e ficou pálido. — Isso vai mudar alguma coisa? Lindolfo respondeu: — Vai mudar muita coisa. Enquanto isso, Ernesto Vila Nova recebia na Rádio Nacional um relatório incômodo: nos subúrbios, programas pequenos com música nordestina cresciam em audiência. São Cristóvão, Madureira, Realengo, Campo Grande. Bairros cheios de homens e mulheres que trabalhavam como braços invisíveis do Rio e carregavam no peito uma saudade que nenhuma valsa apagava. Ernesto leu 3 vezes, fechou a gaveta e tentou enterrar o assunto. Mas o disco de Lindolfo começou a circular de mão em mão, de quitanda em quitanda, de pensão em pensão. Na sexta à noite, trabalhadores botavam o disco no gramofone e dançavam até a madrugada, como se o chão de madeira virasse terreiro de interior. Em 14 meses, 80.001 cópias foram vendidas sem o aval da Rádio Nacional. Foi então que Ernesto Vila Nova apareceu suado no camarim improvisado de um circo em Niterói, onde Gonzaga já lotava apresentações. Entrou de terno branco, mas sem a mesma grandeza. Não se ajoelhou para pedir perdão; ajoelhou porque o calor, a vergonha e o fracasso dobraram suas pernas. Tirou do bolso um papel dobrado e colocou diante de Gonzaga. — Eu devia ter ouvido. Gonzaga abriu o papel. Era o relatório que Ernesto havia escondido na gaveta. Um trecho estava circulado em vermelho: havia “demanda reprimida” por música que refletisse a experiência dos migrantes nordestinos no Rio. Gonzaga olhou para aquelas palavras frias, técnicas, miseráveis. Era assim que eles chamavam a saudade de um povo inteiro: demanda reprimida. Ele dobrou o papel, guardou no bolso e, quando Ernesto estendeu a mão para propor contrato, respondeu com uma calma que humilhou mais que grito: — O senhor não recusou uma música, seu Ernesto. Recusou um povo. Agora peça licença a esse povo, não a mim.

Parte 3
A frase de Gonzaga atravessou Ernesto Vila Nova como faca sem sangue. No camarim do circo em Niterói, o diretor tentou manter a pose, mas já não havia pose que sustentasse o homem que tinha chamado baião de barulho de matuto e agora via o Brasil inteiro batendo palma para o som que ele expulsara pela porta dos fundos. Gonzaga não aceitou contrato naquela noite. Também não rasgou o relatório. Guardou-o porque precisava lembrar que a cidade grande não era cega por acidente; era cega por escolha. Nos anos seguintes, o baião tomou rádios, feiras, caminhões, festas de São João, casas pobres, salões ricos e auditórios que antes fingiam não ouvir o Nordeste. Valdomiro Bezerra continuou carregador no mercado São Sebastião, sem disco, sem fama, sem fotografia em jornal, mas Gonzaga nunca esqueceu o homem que lhe devolveu a direção naquela noite da pensão. Em uma entrevista de 1964, quando perguntaram quem fora decisivo em sua vida além de Januário, ele respondeu: — Valdomiro Bezerra. Um homem que sabia de água porque tinha tido sede. O apresentador não entendeu, mas quem era retirante entendeu tudo. Astério Drumon seguiu operador de som até se aposentar, sem pedir medalha, sem vender lembrança, sem transformar gesto em vaidade. Quando um pesquisador o procurou em 1981, ele disse apenas: — Eu era de Floriano. Ele era de Exu. A gente se entendeu. O resto é história do Brasil. Lindolfo Maia manteve a gravadora até 1961 e, antes de fechá-la, gravou 42 artistas, 32 deles nordestinos, todos com seus sotaques preservados, suas sanfonas abertas, seus triângulos vivos, suas dores intactas. Em 1958, 12 anos depois de ser empurrado pelo corredor da Rádio Nacional, Gonzaga voltou à mesma emissora como o artista mais ouvido do país. O auditório estava lotado de nordestinos vindos de trem, bonde e ônibus, gente de São Cristóvão, Madureira, Realengo e Duque de Caxias. Quando ele subiu ao palco, houve 1 segundo de silêncio antes da explosão de palmas. Era como se o povo inteiro respirasse junto antes de dizer: estamos aqui. Gonzaga tocou por 2 horas. Depois, no corredor, parou diante de um quadro com fotos antigas de artistas da rádio. Um assistente perguntou se ele precisava de algo. Gonzaga olhou para as molduras e disse: — Tem foto de sanfoneiro nordestino aqui? O assistente respondeu que não. — Vai ter. E teve. Mas a última peça daquela história não estava na rádio, nem no disco, nem no relatório. Estava em dona Zefinha do Recife. Em 1952, antes de voltar para cuidar da mãe doente, ela foi até a gravadora de Lindolfo e deixou um envelope para Gonzaga. Ele só buscou meses depois. Abriu a carta em pé, leu em silêncio e pousou a mão sobre a sanfona encostada na parede. Lindolfo perguntou com cuidado: — Era coisa boa? Gonzaga respondeu: — Era de uma mulher que me viu no dia em que tentaram me convencer de que eu era pequeno. Ela escreveu que, quando eu passei por ela naquele corredor, ela não viu um homem derrotado. Viu o Nordeste inteiro segurando o choro para não dar gosto aos outros. Ninguém sabe onde essa carta foi parar. O relatório de Ernesto também desapareceu depois da morte de Gonzaga, em 1989. Gonzaguinha disse uma vez que o pai tinha o costume de devolver à terra o que já havia cumprido sua função. Talvez o papel tenha sido enterrado em Exu. Talvez a carta tenha ido junto. Talvez nada disso importe. O que importa é que a tal “demanda reprimida” deixou de ser reprimida. Virou voz, ritmo, memória e orgulho. Ernesto Vila Nova morreu em 1971, sem conseguir apagar a gargalhada que deu naquele corredor. Adalberto Fontes tentou relançar a carreira em 1955 e ouviu de Lindolfo Maia que seu material não era bom, não por vingança, mas porque o tempo às vezes é justo sem precisar ser cruel. Já Raimundo Nonato Lima, filho de retirantes pernambucanos, cresceu em Madureira ouvindo Asa Branca no vinil do pai. Aos 72 anos, quando perguntam o que Luís Gonzaga significou, ele pensa antes de responder: — Significou que a gente existia. Que a gente não era a parte errada do Brasil. Que a gente era o Brasil. E talvez seja por isso que, cada vez que uma sanfona abre o fole e parece respirar fundo antes da primeira nota, não é só música que começa. É um povo inteiro voltando pela porta da frente do país que um dia tentou empurrá-lo para fora.

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