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setran “Mãe… eu não estou me sentindo bem…”

Parte 1
Marina Azevedo fingiu estar morta no tapete da sala enquanto o próprio marido, a 2 metros dela, sorria ao telefone e dizia que finalmente ficaria livre dela e do filho de 9 anos.

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O jantar tinha começado bonito demais para ser normal. A mesa da casa em um condomínio fechado de Campinas estava posta com guardanapos de linho, taças brilhando, louça branca que Renato quase nunca deixava sair do armário e uma travessa de escondidinho fumegando no centro. A luz amarela da cozinha refletia nos talheres polidos, e Pedro, sentado com as pernas balançando sob a cadeira, olhava para o pai com uma alegria inocente que partia o coração de Marina antes mesmo de qualquer coisa acontecer.

Renato Azevedo não cozinhava havia meses. Trabalhava como gerente comercial de uma empresa de insumos agrícolas, viajava demais, escondia o celular demais, sorria pouco demais. Nas últimas semanas, porém, havia mudado. Não para melhor. Tinha ficado educado de um jeito falso, cuidadoso nas palavras, gentil como alguém ensaiando uma cena.

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— Pai fez jantar? — perguntou Pedro, rindo. — A gente vai ter que pagar couvert?

Marina tentou sorrir.

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— Tomara que pelo menos a sobremesa esteja inclusa.

Renato riu, mas os olhos ficaram parados.

— Hoje eu quis fazer uma coisa especial para minha família.

A palavra família saiu limpa demais. Como prato lavado para esconder rachadura.

Marina observou o prato dele. Quase cheio. Ele mexia na comida, levava pouca coisa à boca, bebia água, olhava de relance para o celular virado para baixo ao lado do guardanapo. Pedro falava da escola, do campeonato de futsal, do amigo que escorregou no pátio, e Marina tentava prestar atenção, mas um peso estranho começou a cair sobre seu corpo.

Primeiro foi a língua. Grossa. Lenta.

Depois os braços.

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Depois as pernas.

Ela segurou a borda da mesa e sentiu o mundo inclinar.

Pedro piscou várias vezes, a testa franzida.

— Mãe… eu tô esquisito.

O coração de Marina disparou.

Renato colocou a mão no ombro do menino com uma calma assustadora.

— Você só está cansado, campeão. Deita a cabeça um pouquinho.

Marina tentou se levantar. A cadeira arranhou o piso. O rosto de Renato mudou por meio segundo, como se a máscara escorregasse e revelasse irritação. Ela abriu a boca para gritar, mas a voz saiu presa, fraca, quase ar.

— Pedro… não…

O menino tentou se apoiar na mesa, mas caiu de lado no tapete. O copo dele virou, espalhando água pelo piso. Marina caiu logo depois, de joelhos, depois com o ombro contra o chão. A sala girava. A respiração dela ficou pesada, curta, como se alguém tivesse colocado pano molhado dentro do peito.

A escuridão veio pelas bordas.

Mas Marina não apagou.

Talvez tenha sido instinto. Talvez tenha sido medo. Talvez tenha sido a parte de mãe que não morre nem quando o corpo falha. Ela deixou os olhos semicerrados, a mão caída perto da cintura, o corpo mole. Fingiu.

Renato se levantou.

A cadeira dele raspou devagar.

Passos se aproximaram. A ponta do sapato tocou o braço de Marina, empurrando de leve.

— Ótimo — murmurou.

Ela sentiu um frio tão grande que a tontura pareceu sumir por 1 segundo.

Renato pegou o celular.

— Pronto — disse, andando até a cozinha. — Os 2 comeram.

Uma voz feminina respondeu do outro lado. Marina não ouviu tudo, mas reconheceu o tom doce, ansioso, íntimo. Camila Prado. A colega de trabalho que Renato jurava ser “só parceira de projeto”. A mulher das mensagens apagadas. Dos perfumes estranhos na camisa. Das viagens que não batiam com recibos.

— Tem certeza? — perguntou Camila, abafada pela ligação.

— Segui do jeito que você mandou. Vai parecer intoxicação alimentar. Ou vazamento. Eu ainda vou decidir.

Marina sentiu vontade de vomitar, mas não podia se mexer.

— E o menino? — perguntou Camila.

Renato ficou em silêncio por um instante.

— Se ele ficar, ela nunca vai sumir da minha vida.

A frase não terminou, mas Marina entendeu tudo.

Não era separação.

Não era raiva.

Não era só uma amante querendo lugar.

Era extermínio.

Renato voltou para a sala. Abriu uma gaveta. Marina ouviu metal batendo em metal, plástico arrastando, uma mochila sendo puxada. Ele passou perto de Pedro e não se abaixou.

— Desculpa, campeão — disse, sem emoção verdadeira. — Era isso ou perder tudo.

A porta da frente abriu. Um vento frio entrou pelo corredor. Depois fechou.

Silêncio.

Marina contou mentalmente até 30. Depois até 60. O corpo inteiro tremia por dentro, mas ela mexeu apenas os dedos.

A mão pequena de Pedro encontrou a dela.

Ele estava consciente.

Quase chorou, mas engoliu o choro para não fazer barulho.

— Não se mexe ainda — sussurrou, com a voz quebrada.

Pedro respondeu com um aperto fraco.

Marina puxou o celular do bolso de trás com esforço absurdo. A tela parecia pesada demais para os olhos dela. Arrastou-se pelo corredor até perto da janela do banheiro, onde o sinal costumava pegar melhor. Pedro veio atrás, pálido, suando, quase rastejando.

Ela discou 190.

A chamada caiu.

Tentou de novo.

Nada.

Na terceira tentativa, uma voz atendeu.

— Polícia Militar, qual é a emergência?

Marina encostou a testa no piso frio.

— Meu marido colocou alguma coisa na nossa comida… meu filho tem 9 anos… ele ainda está vivo… eu também… por favor, manda ajuda…

A atendente mudou de tom na mesma hora.

— Senhora, ele ainda está na casa?

— Saiu… mas falou que vai voltar para fingir que encontrou a gente assim.

— Tranque-se em algum cômodo. Mantenha a criança acordada. O socorro está indo.

Marina ajudou Pedro a entrar no banheiro. Trancou a porta. Molhou os lábios dele com água da pia. Pediu que ele olhasse para ela, que piscasse, que respirasse.

Então o celular vibrou.

Número desconhecido.

VEJA O LIXO DA COZINHA. TEM PROVA. ELE ESTÁ VOLTANDO COM OUTRA PESSOA.

Marina parou de respirar.

Ao longe, sirenes começaram a crescer.

Pedro apertou sua mão.

E, antes que ela pudesse sentir alívio, ouviu a maçaneta da porta da frente girar outra vez.

Renato tinha voltado.

E não estava sozinho.

Parte 2
Do banheiro, Marina ouviu 2 homens entrando com passos rápidos e baixos, como ladrões dentro de uma casa que já conheciam. Renato falava com pressa, dizendo que eles precisavam esperar mais alguns minutos antes de ligar para o SAMU, que a cena tinha que parecer descoberta natural, que ninguém poderia perceber que ele havia saído. O outro homem, que Marina reconheceu como Vítor, irmão de Camila e segurança particular de eventos, perguntou se o menino ainda respirava. Renato respondeu que sim, mas por pouco tempo. Pedro começou a tremer tanto que Marina tapou a boca dele com a mão, não para calá-lo com violência, mas para impedir que o medo os entregasse. A atendente continuava na linha, ouvindo tudo. Então o primeiro soco na porta veio de fora: Polícia. Renato tentou abrir com voz de marido desesperado, dizendo que havia encontrado a esposa e o filho passando mal, mas os policiais já tinham recebido a ligação de dentro da casa. Quando Marina destrancou o banheiro, apoiada na parede, carregando Pedro pela cintura, o rosto de Renato perdeu a cor. Não havia arrependimento nele. Só ódio por ela ainda estar de pé. Os paramédicos colocaram oxigênio em Pedro, prenderam Marina à maca e começaram o atendimento ali mesmo, no corredor. Na cozinha, um policial seguiu a mensagem anônima e revirou o lixo. Debaixo de cascas de legumes, guardanapos e restos de comida, encontrou uma embalagem quebrada de produto químico concentrado, luvas descartáveis e um pano com cheiro forte demais para pertencer a qualquer limpeza comum. Renato ainda tentou dizer que era material da empresa, que alguém podia ter deixado ali, que Marina sempre fora desconfiada e ciumenta. Mas o celular dele desmontou a mentira antes da ambulância sair do condomínio. Havia mensagens apagadas com Camila recuperadas no aparelho, áudios combinando horário, prints sobre seguro de vida, pesquisas sobre sintomas e conversas sobre como fazer a morte parecer acidente doméstico. A vizinha, dona Celeste, de 72 anos, apareceu na calçada de robe, segurando o próprio celular como prova. Ela contou que vira Renato mais cedo carregando uma sacola preta e luvas para a garagem, depois o ouvira no jardim falando que “à noite acabava tudo”. Foi ela quem mandou a mensagem anônima quando viu o carro dele retornar com Vítor. No hospital, já de madrugada, a delegada Helena Nogueira sentou diante de Marina com uma pasta nas mãos e olhos que não prometiam consolo fácil, mas verdade. Disse que aquilo não tinha sido impulso, nem briga de casal, nem desespero. Renato vinha preparando a cena havia semanas. Comprou o produto por intermédio da empresa, pesquisou sintomas, separou dinheiro em espécie, consultou seguro, alugou um box em Sumaré com nome falso e guardou ali um segundo celular, documentos falsificados, roupas limpas, uma mala pronta e um caderno com horários de Marina e Pedro. Havia páginas observando quando o menino voltava do treino, quando Marina apagava as luzes, quando a vizinha saía para missa. Na última folha, a frase escrita por Camila em mensagem apareceu impressa: “Se o menino sobreviver, ela nunca vai soltar você.” Renato respondeu: “Então ele também não pode sobreviver.” Marina leu aquilo e não chorou. O medo continuava ali, mas mudou de forma. Virou aço. Porque ela entendeu que sobreviver não seria suficiente. Agora precisava fazer a verdade viver mais que ele.

Parte 3
Sete meses depois, Renato entrou na sala do júri em Campinas usando terno azul-escuro, barba feita e expressão de homem injustiçado. Camila veio logo atrás, sem maquiagem forte, tentando parecer frágil, como se meses de mensagens cruéis tivessem sido apenas confusão amorosa. Vítor evitava olhar para Marina. Pedro não estava no tribunal naquele dia; a psicóloga recomendara que ele não assistisse à reconstrução da noite em que quase perdeu a vida. Ainda assim, ele estava presente em cada prova, em cada silêncio, em cada foto da mesa posta com cuidado criminoso. A promotoria montou o caso peça por peça. O lixo da cozinha. A embalagem escondida. As luvas. As mensagens. O seguro. O box alugado com nome falso. A vizinha que viu, ouviu e teve coragem de mandar o aviso. A gravação da ligação para o 190, com Marina sussurrando que o marido os havia envenenado enquanto Pedro respirava fraco ao lado dela, fez 1 jurada levar a mão à boca. Renato permaneceu imóvel. Não chorou ao ouvir a voz do filho. Não abaixou a cabeça quando a promotora leu a mensagem sobre o menino não poder sobreviver. Apenas apertou o maxilar, irritado por aquilo estar sendo dito em voz alta. Quando Marina foi chamada, caminhou até o banco das testemunhas com as mãos firmes. Não usava joias, não usava drama, não usava a antiga aliança. Contou como Renato passou semanas fingindo gentileza, como cozinhou sem comer, como observou os 2 caírem, como testou seu braço com a ponta do sapato, como falou com Camila ao telefone achando que ela já não podia ouvir. Contou como Pedro, mesmo sem forças, apertou sua mão para avisar que estava vivo. Contou que a coisa mais difícil não foi arrastar o corpo até o banheiro, mas mandar o filho ficar quieto quando todo instinto de mãe queria gritar por socorro. O advogado de Renato tentou atacá-la, insinuando ciúme, paranoia, vingança por traição. Marina olhou para ele e respondeu com uma calma que esmagou a sala inteira: quem sente ciúme não fabrica embalagem no lixo, não aluga box secreto, não escreve rotina de criança em caderno. Camila chorou quando percebeu que a própria imagem de amante enganada não resistiria às mensagens recuperadas. Vítor aceitou acordo e confirmou que fora chamado para ajudar Renato a “organizar a cena”, sem saber, segundo ele, que Pedro ainda respirava. Ninguém acreditou muito nessa parte, mas a confirmação bastou. O veredito veio depois de 3 dias. Renato foi condenado por tentativa de homicídio qualificado contra Marina e Pedro, planejamento, fraude e ocultação de provas. Camila também foi condenada por participação no plano. Ao ser algemado, Renato finalmente olhou para Marina com a mesma raiva da noite da cozinha e murmurou baixo, mas não baixo o bastante: “Você devia ter ficado no chão.” Anos antes, essas palavras teriam atravessado Marina como faca. Naquele dia, bateram em alguma parede invisível e caíram sem força. Ela só respondeu com o silêncio de quem não devia mais nada ao monstro. Do lado de fora do fórum, o sol da tarde estava forte, limpo, quase cruel de tão claro. Pedro esperava no carro com a psicóloga e a irmã de Marina, tia Renata, segurando uma bola de futsal no colo. Ainda verificava trancas 2 vezes antes de dormir. Ainda não gostava de jantar escondidinho. Ainda perguntava, às vezes, se pessoas que sorriem podem ser perigosas. Mas também ria de novo quando fazia gol, corria atrás do cachorro da tia e dormia algumas noites inteiras sem acordar chamando a mãe. Quando viu Marina, desceu do carro e correu até ela. Abraçou-a pela cintura com força. Perguntou baixinho se agora estavam seguros. Marina passou a mão pelo cabelo dele, sentindo o peso e a bênção de ainda poder tocar aquele menino. Disse que estavam mais seguros do que jamais tinham estado, não porque o mundo fosse perfeito, mas porque agora a verdade tinha nome, processo, prova e porta trancada. Meses depois, mudaram-se para uma casa menor em Vinhedo, com quintal, jabuticabeira e uma cozinha onde Pedro voltou a ajudar a bater bolo, primeiro cheirando tudo com desconfiança, depois rindo quando a massa sujava o nariz. Marina nunca tentou fingir que aquela noite não existiu. Guardou os documentos, manteve terapia, respeitou os medos do filho e aprendeu a chamar sobrevivência de começo, não de final feliz. Às vezes, ao apagar as luzes, ainda lembrava da voz de Renato dizendo que ficaria livre. Então olhava para Pedro dormindo, para a respiração dele enchendo o quarto, para o cachorro deitado no tapete, e entendia que ele se enganou. Quem ficou livre foram eles. Não na noite em que caíram no chão, mas no instante em que ficaram quietos o bastante para sobreviver e fortes o bastante para serem ouvidos.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.