Posted in

Na frente de todos, ela gritou que gostava dele… e só depois descobriu por que ele nunca deixou ninguém chegar perto.

PARTE 1

Advertisements

— Sai da minha frente antes que eu esqueça que hoje eu prometi não arrumar confusão.

Foi a primeira frase que ouvi Rafael Costa dizer.

Advertisements

Ele estava encostado no muro descascado do beco ao lado do Colégio Santa Cecília, em Campinas, com o uniforme meio aberto, a mochila jogada no chão e uma expressão tão fria que parecia que tinha nascido sem paciência para o mundo. Dois meninos estavam discutindo perto dele, um empurrando o outro, mas bastou Rafael levantar os olhos para os dois se calarem como se a diretora tivesse aparecido.

Eu, Mariana Almeida, aluna comum, notas medianas, zero vocação para drama, só queria passar por aquele beco porque era o caminho mais curto para casa. Dar a volta pelo quarteirão significava andar mais 20 minutos debaixo do sol. Mas, naquele dia, eu quase preferi o sol.

Advertisements

Rafael era famoso no colégio inteiro. Tirava notas absurdas, vivia no top 5 do terceiro ano e, ao mesmo tempo, era conhecido como “o dono da quadra”. Não porque jogava bem, embora jogasse, mas porque ninguém tinha coragem de enfrentá-lo. Na semana anterior, ele tinha feito discurso na premiação dos melhores alunos pela manhã e levado advertência por briga à tarde. Uma combinação completamente sem lógica.

Quando tentei passar, um dos meninos esbarrou em mim. Antes que eu dissesse qualquer coisa, Rafael segurou o garoto pela gola.

— Tem gente querendo passar.

O menino empalideceu.

Eu passei rápido, apertando a alça da mochila contra o peito. Por impulso, virei e falei:

— Obrigada. Você é uma boa pessoa.

O silêncio foi tão estranho que pensei ter cometido um crime. Os amigos dele me olharam como se eu tivesse chamado um leão de gatinho. Rafael apenas arqueou a sobrancelha, mas eu juro que vi o canto da boca dele quase subir.

Advertisements

Depois daquele dia, comecei a encontrá-lo sempre. Às vezes sozinho no beco. Às vezes com os amigos. Às vezes no portão do colégio, rodeado de gente que fingia não olhar, mas olhava.

Numa noite, quase 23h, saí de casa para comprar pão de queijo e leite numa conveniência. Meus pais trabalhavam viajando, então eu ficava muito sozinha e, quando a preguiça vencia, meu jantar virava qualquer coisa de padaria.

Foi lá que vi Rafael de novo, sentado numa mesa de espetinho do outro lado da rua, cercado pelos amigos barulhentos. Só que ele não estava bebendo nem fazendo pose. Estava resolvendo exercícios de matemática.

Eu parei com o pão de queijo na mão.

Aquele era o temido Rafael Costa, lenda do colégio, fazendo lista de funções enquanto os amigos riam alto ao redor.

Um dos garotos me viu e gritou:

— Rafa! A menina certinha ali!

Quis desaparecer dentro da geladeira de refrigerante.

Rafael levantou a cabeça e me chamou com um gesto. Como eu precisava mesmo passar por ali para voltar para casa, atravessei a rua.

Ele me olhou de cima a baixo e franziu a testa.

— Você sai sozinha essa hora vestida desse jeito?

Eu olhei para minha camiseta larga e meu short.

— Fui comprar lanche.

Ele fechou o caderno, tirou a jaqueta e jogou sobre meus ombros.

— Veste. Eu te levo.

Eu devia ter recusado. Devia ter dito que não precisava. Mas a jaqueta tinha um cheiro limpo, de sabonete caro e vento frio, e Rafael andando ao meu lado em silêncio parecia menos assustador do que todos diziam.

Na porta do meu prédio, tentei devolver a jaqueta.

— Amanhã eu te devolvo.

— Lava antes — ele disse.

— Mas eu nem sujei.

— Sujou.

Eu entendi ali que discutir com Rafael era como discutir com poste: inútil.

Subi correndo, mas parei na janela. Ele ainda estava na calçada, olhando para cima. Quando percebeu que eu estava olhando, levantou a mão num aceno discreto. Eu acenei de volta, completamente sem jeito. Então ele sorriu.

Foi pequeno, quase nada.

Mas foi o suficiente para eu perder a paz.

No dia seguinte, esqueci a jaqueta em casa. Quando cheguei ao colégio, ele estava no portão.

— Minha jaqueta.

— Eu esqueci. Amanhã eu trago.

Ele segurou a alça da minha mochila e me puxou de leve para perto.

— Amanhã, na quadra. E compra uma água.

— Além da jaqueta, agora tem juros?

Ele não respondeu. Só passou a mão na minha cabeça como se eu fosse uma criança birrenta.

Passei a manhã inteira irritada comigo mesma por ter gostado daquilo.

Mais tarde, na aula, me peguei olhando pela janela. A professora parou a explicação e disse:

— Mariana, já que a paisagem lá fora está tão interessante, responda a questão.

A turma inteira riu. Do lado de fora, passando pelo corredor, estava Rafael com os amigos. Ele me viu em pé, vermelha de vergonha. Não riu. Só me olhou como se tivesse entendido tudo.

Na volta para casa, minha melhor amiga, Bianca, me arrastou até uma praça para vê-la se declarar a Lucas, o menino educado da turma ao lado. Ela foi rejeitada com muita gentileza e voltou quase chorando.

Eu estava tentando consolá-la quando ouvi aquela voz atrás de mim:

— Veio ver declaração alheia ou declarar também?

Virei num susto. Rafael estava ali, com as mãos nos bolsos e a cara de quem sabia exatamente o efeito que causava.

— Minha amiga veio falar com Lucas. Eu só acompanhei.

— Achei que você gostasse dele.

— Eu nem conheço ele direito.

Rafael me encarou por alguns segundos. Depois disse:

— Melhor assim.

Antes que eu perguntasse o que aquilo significava, ele saiu.

No caminho para casa, ouvi passos atrás de mim. Acelerei. Os passos aceleraram também. Virei quase gritando:

— Quem está me seguindo?

Rafael começou a rir. Rir de verdade.

— Eu não estou seguindo você. Eu moro para esse lado.

— Você quase me matou de susto!

Ele ainda sorria quando chegamos ao beco. Lá dentro, dois grupos de meninos se encaravam, prontos para brigar. Rafael ia entrar quando, sem pensar, segurei a barra da camisa dele.

— Para de brigar, Rafael.

Ele baixou os olhos para minha mão.

— O quê?

Eu respirei fundo.

— Você é inteligente. Tem futuro. Vai prestar vestibular, fazer faculdade, sei lá. Não estraga sua vida por causa de gente que só quer te ver perder o controle.

Os amigos dele ficaram em silêncio. Rafael também.

Eu soltei a camisa dele e saí correndo antes que minha coragem acabasse.

Naquela noite, me arrependi umas 300 vezes. Quem eu pensava que era para dar sermão no garoto mais temido do colégio?

Só que, no dia seguinte, quando fui devolver a jaqueta na quadra, os amigos dele me receberam com sorrisos suspeitos.

— Chegou a cunhada!

Eu congelei.

Antes que eu pudesse negar, Rafael apareceu atrás deles e perguntou, calmo demais:

— Quem chamou ela de cunhada?

Todos ficaram mudos.

Entreguei a jaqueta e a água, morta de vergonha. Ele pegou a jaqueta, mas deixou a água na minha mão.

— Ontem eu ouvi você.

Meu coração falhou.

— E?

Ele olhou direto para mim.

— Não briguei.

Os amigos dele começaram a vaiar e rir ao mesmo tempo. Rafael não desviou os olhos de mim.

— Então, depois do jogo, você me entrega essa água.

E naquele instante, com a quadra cheia, todos olhando e meu rosto pegando fogo, eu percebi que o problema não era Rafael ser difícil.

O problema era que talvez ele estivesse me deixando chegar perto de propósito.

PARTE 2

A partir daquele dia, o colégio inteiro começou a inventar história sobre mim e Rafael.

Eu dizia que não tinha nada. Ele dizia menos ainda, porque Rafael parecia economizar palavras como se cada frase custasse caro. Mas bastava ele passar perto da minha sala para alguém cochichar. Bastava eu comprar água na cantina para alguém perguntar se era para ele.

No jogo daquele dia, Rafael entrou na quadra com a camisa vermelha do time do colégio e fez a arquibancada virar um caos. As meninas gritavam, os meninos fingiam não se importar, e eu tentava parecer normal com uma garrafa de água na mão.

Quando o jogo acabou, várias garotas correram até ele. Eu fiquei parada, porque não tinha coragem de disputar espaço com metade do terceiro ano.

Rafael olhou por cima da multidão, me encontrou e disse:

— Licença. Estão bloqueando meu caminho.

As meninas abriram passagem como se obedecessem a uma ordem invisível.

Ele veio direto até mim, pegou a garrafa da minha mão, bebeu e devolveu.

— Não era para você me entregar?

— Tinha muita gente.

Ele riu baixo e tocou minha cabeça.

— Você é educada demais, Mariana.

Naquele dia, decidi que ia gostar dele de propósito.

Bianca, que se dizia especialista em romance por já ter namorado duas vezes, montou um plano.

— Primeiro: cria momentos a sós. Segundo: faz algo fofo, tipo bolo. Terceiro: não se declara rápido. Homem difícil gosta de mistério.

— Você tem certeza?

— Absoluta.

Acreditei nela, erro comum de amiga desesperada.

Na semana seguinte, encontrei Rafael no beco e perguntei, do nada:

— Você e Camila Torres têm alguma coisa?

Camila era a garota mais bonita do terceiro ano, famosa no Instagram do colégio e, segundo Bianca, estava tentando conquistar Rafael havia meses.

Ele franziu a testa.

— Quem?

— Camila. Dizem que ela gosta de você.

— Muita gente diz muita coisa.

— Então você não gosta dela?

— Não conheço.

A resposta deveria ter me tranquilizado, mas eu fiquei tão nervosa que soltei a pior desculpa possível:

— Eu queria pedir para você me ajudar em matemática. Mas se você tivesse namorada, talvez ela não gostasse.

Rafael me olhou por alguns segundos. Depois sorriu daquele jeito que me deixava burra.

— Aula particular?

— É.

— Sábado, biblioteca municipal. 15h.

Eu fui de vestido amarelo, escolhido por Bianca, levando caderno, canetas coloridas e um pote de brigadeiro que eu mesma tentei fazer. “Tentei” era a palavra certa. O primeiro queimou, o segundo ficou mole demais, o terceiro parecia aceitável.

Rafael chegou pontualmente. Quando viu o pote, arqueou a sobrancelha.

— Você fez?

— Fiz. Mas não prometo sobrevivência.

Ele comeu um, depois outro.

— Está bom.

Eu quase bati palmas de alívio.

A aula começou de verdade. E foi aí que descobri uma injustiça: Rafael brigava, jogava basquete, era bonito e ainda explicava matemática bem. Ele se inclinava para mostrar as contas, falava baixo, paciente, e eu não conseguia decidir se olhava para o caderno ou para a boca dele.

Com o tempo, aquelas aulas viraram rotina. Sábado na biblioteca. Quarta na praça de alimentação do shopping. Às vezes ele me esperava no portão. Às vezes eu levava lanche. Às vezes ele fingia que não gostava, mas comia tudo.

Quando menstruei de surpresa num desses encontros e tentei comprar refrigerante gelado depois, ele ficou vermelho até a orelha e proibiu.

— Faz mal.

— Rafael, eu não vou morrer por um gole.

— Não.

— Só um pouquinho.

Ele ficou tão constrangido que comprou um sorvete, me deu uma colherada minúscula e comeu o resto inteiro, como se estivesse me salvando de uma tragédia nacional.

Eu ri dele por uma semana.

Foram quase dois anos assim.

Eu gostava dele. Eu tentava mostrar. Fazia bolo, mandava resumo antes das provas, comprava café quando ele estudava até tarde, ia aos jogos, torcia de longe, deixava bilhetes idiotas dentro dos livros dele.

E Rafael? Rafael continuava do mesmo jeito: cuidadoso, presente, silencioso.

Minhas notas subiram tanto que minha mãe chorou quando viu meu simulado do ENEM. Rafael continuou no topo. Camila Torres se declarou para ele no festival do colégio e foi rejeitada tão rápido que virou assunto por dias.

Bianca ficou revoltada.

— Mariana, pelo amor de Deus, se declara logo! Eu apostei 50 reais em você naquela enquete antiga!

— Que enquete?

Foi assim que descobri a humilhação pública.

Dois anos antes, os amigos de Rafael tinham criado uma aposta no grupo do terceiro ano: “Quem conquista Rafael Costa primeiro? Mariana ou Camila?” Todo mundo tinha esquecido. Até que, depois do último simulado, alguém reviveu a brincadeira. Pior: uma pessoa misteriosa tinha apostado 1.000 reais em mim.

A escola inteira voltou a comentar.

Na noite depois da última prova do vestibular, a turma se reuniu numa pizzaria. Eu, já com 18 anos, cansada, emocionada e com a cabeça leve demais por causa de duas taças de vinho, fui pressionada por todo mundo.

— Liga para ele!

— Se declara!

— Resolve essa novela!

Com as mãos tremendo, liguei.

— Mari? — a voz dele veio baixa.

Eu fechei os olhos e gritei:

— Rafael Costa, eu gosto de você! Vira meu namorado de uma vez!

A pizzaria explodiu em risadas e gritos.

Do outro lado, silêncio.

Depois, a voz dele veio diferente.

— Onde você está?

Eu falei o endereço sem pensar.

A ligação caiu.

E, enquanto todo mundo ria achando que eu tinha acabado de passar vergonha, a porta da pizzaria se abriu.

Rafael entrou com o rosto sério, os olhos procurando só uma pessoa.

Eu.

PARTE 3

Eu deveria ter ficado quieta.

Deveria ter fingido sobriedade, ajeitado o cabelo, dito uma frase bonita. Mas quando Rafael atravessou a pizzaria e parou na minha frente, tudo que consegui fazer foi agarrar a camiseta dele e começar a chorar.

— Você é difícil demais! — soluçei, com a dignidade indo embora pela janela. — Eu tentei por dois anos, Rafael. Dois anos! Fiz brigadeiro, fiz resumo, levei água, fui ver jogo, estudei matemática sem necessidade só para ficar perto de você!

A pizzaria inteira ficou em silêncio por um segundo.

Depois alguém murmurou:

— Meu Deus, ela realmente estava tentando.

Rafael ficou parado, olhando para mim com aquela expressão fria que eu conhecia. Só que, de perto, dava para ver que os olhos dele não estavam frios. Estavam assustados. E brilhando.

Ele tirou minha mão da camiseta dele com cuidado.

— Vamos embora.

— Não! Eu ainda não terminei de reclamar.

— Termina no caminho.

Ele pagou minha conta, ignorou os assobios dos amigos e me levou para fora. No carro por aplicativo, sentei ao lado dele e chorei de novo, agora lembrando do detalhe mais doloroso.

— Eu apostei em mim mesma naquela enquete idiota.

Rafael virou o rosto devagar.

— Você fez o quê?

— Apostei 100 reais que eu ia conseguir conquistar você. E perdi. Perdi dinheiro, perdi tempo, perdi dignidade.

Ele apertou os lábios, claramente tentando não rir.

— Mariana.

— Não fala meu nome bonito agora, que eu fico mais triste.

— Você não perdeu.

Eu funguei.

— Perdi sim. Você nunca me pediu em namoro.

Ele ficou quieto por um tempo. Depois falou baixo:

— Porque eu estava esperando você passar no vestibular.

A frase atravessou minha bebedeira como água gelada.

— O quê?

Rafael respirou fundo, olhando pela janela.

— Você acha que eu não percebi? No começo, você se distraía por qualquer coisa. Depois começou a estudar sério. Eu não queria virar motivo para você perder o foco. Então fiquei perto. Ajudei. Esperei.

Eu encarei o perfil dele, tentando organizar o coração.

— Você sabia que eu gostava de você?

— Todo mundo sabia, Mari.

— E você?

Ele virou para mim.

— Eu gostei primeiro.

Foi aí que meu estômago embrulhou. Não de emoção. De vinho, pizza e vergonha acumulada. Rafael percebeu antes de mim.

— Motorista, encosta, por favor!

Desci correndo e vomitei ao lado de uma lixeira. A cena mais romântica da minha vida terminou comigo passando vergonha numa calçada de Campinas, enquanto o garoto que eu amava segurava meu cabelo e dizia:

— Respira. Devagar.

Quando cheguei em casa, mal lembro como subi. Só sei que, de manhã, acordei com dor de cabeça e vontade de mudar de país.

Desci para a sala e encontrei meus pais tomando café com aquela expressão que pais fazem quando sabem demais.

— Eu fiz alguma coisa estranha ontem? — perguntei.

Minha mãe sorriu.

— Só chegou abraçada no Rafael, dizendo que ele era “o investimento mais difícil da sua vida”.

Meu pai tossiu para disfarçar o riso.

— E falou que, se ele não namorasse você, ia processar por danos emocionais.

Eu sentei no sofá e cobri o rosto.

— Acabou. Vou morar no Acre.

Peguei o celular para pedir desculpas e vi uma transferência via Pix: R$ 520,00.

Mensagem de Rafael:

“Metade do prêmio da aposta. Você ganhou.”

Eu pisquei várias vezes.

Logo depois, chegaram 47 notificações. Rafael, que nunca postava nada, tinha publicado uma foto nos stories. Eu aparecia dormindo no banco de trás do carro, abraçada ao braço dele como se fosse um travesseiro. A legenda dizia:

“Não teve jeito. Minha namorada é grudenta.”

O colégio enlouqueceu.

Bianca me ligou gritando tão alto que quase estourou meu ouvido.

— EU SABIA! EU GANHEI 50 REAIS! MARIANA, EU TE AMO!

Nos grupos, os comentários vinham sem parar.

“Rafael esperou dois anos para assumir?”

“A aposta serviu para alguma coisa!”

“Camila deve estar chorando até agora.”

“Quem colocou 1.000 reais na Mariana?”

Eu olhei de novo para o Pix e entendi. O apostador misterioso era ele.

Rafael tinha apostado em mim.

Passei dois dias fugindo dele. Não respondia direito, evitava o portão, pedia para Bianca me acompanhar. Eu não sabia o que fazer com a vergonha, a alegria e o medo de descobrir que talvez o amor não tivesse sido uma batalha perdida, mas uma espera dos dois lados.

No terceiro dia, Rafael apareceu na porta do meu prédio.

Minha mãe abriu antes de mim.

— Oi, Rafael. Entra.

— Mãe! — protestei da cozinha.

Ela me ignorou com a tranquilidade de quem já tinha escolhido genro.

Rafael entrou usando jeans, camiseta preta e aquele olhar que ainda me desmontava. Parou na minha frente e tirou o celular do bolso.

— Precisamos conversar.

— Se for sobre ontem, eu estava emocionalmente instável.

— Tenho prova.

Ele apertou o play.

Minha voz bêbada saiu alta:

— Rafael Costa, você é difícil demais, mas eu gosto só de você!

Avancei para pegar o celular.

— Apaga isso!

Ele levantou o braço, rindo. Eu tentei alcançar, mas ele era alto demais.

— Apago com uma condição.

— Qual?

— Fala de novo. Sóbria.

Meu rosto pegou fogo. Minha mãe fingiu que precisava arrumar uma almofada, mas ficou descaradamente ouvindo.

Rafael baixou o celular e ficou sério.

— Mari, eu gostei de você desde a primeira vez que te vi perto da árvore do colégio, segurando um monte de livros e olhando para o nada. Depois comecei a passar pelo seu caminho de propósito. Mandei meus amigos pararem briga quando você aparecia. Fingi que a jaqueta estava suja para ter motivo de te ver de novo. Aceitei aula particular porque eu também queria ficar sozinho com você.

Eu perdi a fala.

Ele continuou:

— Quando você me pediu para parar de brigar, eu parei. Não porque qualquer pessoa pediu. Porque foi você. E eu queria ser alguém que você pudesse admirar.

Meus olhos encheram de lágrimas, mas dessa vez eu não estava bêbada.

— Por que nunca falou?

— Porque você tinha sonhos maiores do que namorar um idiota que vivia se metendo em confusão. Eu queria estar do seu lado, não no seu caminho.

Aquela frase fez algo dentro de mim se quebrar e se curar ao mesmo tempo.

Eu dei um passo à frente.

— Você nunca foi um idiota para mim.

Ele sorriu, daquele jeito raro que tinha destruído minha paz dois anos antes.

— Então fala.

Respirei fundo.

— Rafael, eu gosto de você. Gosto quando você finge ser frio, mas compra sorvete para eu não tomar refrigerante gelado. Gosto quando explica matemática como se eu não estivesse olhando para sua cara. Gosto quando tenta parecer durão e fica vermelho por qualquer coisa. Gosto de você há muito tempo.

Ele se aproximou.

— Agora minha vez. Mariana, eu gosto de você. Mais do que consegui esconder. Quer namorar comigo oficialmente, sem aposta, sem plateia e sem áudio vergonhoso?

Minha mãe, do sofá, sussurrou:

— Diz sim, menina.

Eu ri chorando.

— Sim.

Rafael me abraçou com força. Não foi um abraço cinematográfico perfeito. Minha mãe bateu palma. Meu pai apareceu no corredor fingindo surpresa. Eu escondi o rosto no peito dele, morta de vergonha, enquanto ele ria baixinho perto do meu cabelo.

No colégio, a notícia virou tempestade. Camila, para surpresa geral, veio falar comigo no intervalo.

— Eu fiquei com raiva no começo — ela admitiu. — Mas acho que ele sempre olhou para você. Eu só não queria ver.

Não viramos amigas íntimas, mas aquilo encerrou a guerra imaginária que os outros tinham criado. Já os meninos que fizeram a aposta tiveram que ouvir sermão da coordenação, porque a brincadeira tinha passado do limite. Alguns pediram desculpa. Outros devolveram o dinheiro. Bianca, claro, recebeu os 50 reais dela e comprou coxinha para comemorar.

Rafael mudou também. Não virou santo, porque ninguém muda de personalidade por mágica, mas parou de comprar brigas que não eram dele. Passou a jogar mais, estudar mais e sorrir um pouco mais. Quando alguém o chamava de “dono da quadra”, ele respondia:

— Agora sou namorado da Mariana. Dá mais trabalho.

No fim daquele ano, eu passei na faculdade que queria. Ele passou em engenharia. No dia do resultado, nos encontramos no mesmo beco onde tudo começou. O muro continuava descascado. O sol continuava quente. Mas eu já não tinha medo de passar por ali.

Rafael segurou minha mão e disse:

— Ainda bem que você não deu a volta naquele dia.

Eu apertei os dedos dele.

— Ainda bem que você fingiu que sua jaqueta estava suja.

Ele riu.

E eu entendi que, às vezes, a pessoa que parece mais difícil de alcançar é justamente aquela que estava caminhando na sua direção o tempo inteiro.

O amor não chegou como nos filmes, com frase perfeita e música ao fundo. Chegou num beco, numa jaqueta emprestada, numa garrafa de água, em aulas de matemática, em brigadeiros tortos, numa aposta idiota e numa confissão bêbada que eu nunca mais consegui esquecer.

E talvez seja por isso que tanta gente comentou aquela história.

Porque todo mundo conhece alguém que demora a falar.

Todo mundo já confundiu silêncio com indiferença.

E todo mundo, no fundo, torce para descobrir que aquele amor impossível também estava esperando coragem do outro lado.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.