
PARTE 1
— Assina isso agora ou a gente manda seu noivo buscar você em pedaços.
A primeira coisa que Marina Duarte sentiu ao abrir os olhos foi o cheiro de mofo misturado com cimento molhado. Ela estava sentada no chão de um galpão abandonado na zona leste de São Paulo, com as mãos amarradas para trás e três homens tatuados olhando para ela como se estivessem diante de uma presa fácil.
Só que havia um pequeno problema.
Marina Duarte não era mais Marina Duarte.
Na vida anterior, ela tinha sido a assassina número 1 de uma organização secreta. Fria, precisa, treinada para matar em silêncio. Mas, de algum jeito absurdo, acordara dentro de um romance barato como a noiva fraca, chorona e inútil de Rafael Albuquerque, o homem mais temido do submundo paulista.
Na história original, Marina era sequestrada, traída por um ex-namorado interesseiro, abandonada pela própria família e acabava morrendo de forma humilhante.
Ela piscou devagar.
O homem à sua frente abriu um canivete e encostou a lâmina perto do rosto dela.
— Assina o documento renunciando à herança da sua mãe e a gente finge que nada aconteceu.
Marina olhou para a faca. Depois olhou para a mão dele.
— Você está segurando errado.
Os três ficaram em silêncio.
— O quê?
— A faca. Desse jeito, se tentar avançar, você vai cortar o próprio tendão antes de me acertar.
O sequestrador ficou vermelho de raiva.
— Sua patricinha maluca…
Ele levantou a mão para bater nela.
Não teve tempo.
Em menos de 3 minutos, a corda estava arrebentada, dois homens estavam caídos no chão gemendo e o líder do grupo estava amarrado com o próprio cinto, com o rosto encostado no cimento.
Marina sentou-se na única cadeira do galpão, cruzou as pernas e limpou as mãos com um pedaço de pano.
Foi exatamente nesse momento que a porta de ferro foi chutada com violência.
Rafael Albuquerque entrou cercado de seguranças de preto. Alto, impecável, com terno escuro e olhar de quem podia enterrar uma cidade inteira sem alterar a respiração.
Mas ele parou no meio do caminho.
A noiva tímida que ele esperava encontrar chorando estava sentada como uma rainha, enquanto três homens enormes choramingavam aos pés dela.
Davi, o assistente de Rafael, engoliu seco.
— Chefe… acho que chegamos um pouco tarde.
Marina gelou.
Ela tinha esquecido de interpretar a personagem.
No mesmo instante, largou o pano, levou a mão ao peito e forçou duas lágrimas.
— Rafa… eu fiquei com tanto medo.
O sequestrador amarrado levantou a cabeça, indignado.
— Medo? Ela quebrou minha costela e ainda me chamou de amador!
Rafael estreitou os olhos. Por alguns segundos, Marina achou que ele fosse desmascará-la ali mesmo.
Mas ele apenas tirou o paletó e jogou sobre os ombros dela.
— Vamos para casa.
Marina pensou que ele a levaria de volta para a mansão dos Duarte. Mas o carro seguiu direto para a casa dos Albuquerque, um condomínio fechado enorme, cheio de câmeras, muros altos e homens armados até os dentes.
Ela tentou negociar.
— Eu posso recusar?
— Não.
Rafael nem abriu os olhos.
— Até eu descobrir quem mandou sequestrar você, vai ficar comigo. Não estou com tempo para trocar de noiva.
Marina decidiu ali que precisava cancelar aquele noivado o quanto antes. Para sobreviver, precisava sair da trama principal.
Então começou seu plano.
Primeiro, tentou parecer mimada. Pediu 8 refeições por dia. Rafael contratou outro chef.
Depois, tentou parecer interesseira. Comprou a bolsa mais cara do shopping. Rafael olhou a nota e perguntou:
— Só uma? A família Duarte está falida assim?
No dia seguinte, entregou a ela um cartão sem limite.
Marina quase perdeu a paciência.
Então tentou parecer burra num almoço com Dona Lurdes, avó de Rafael. Errou de propósito termos de negócios, fingiu não entender nada de investimentos e ainda derrubou suco na toalha.
Dona Lurdes bateu palmas, encantada.
— Que menina maravilhosa! Nessa família só tem gente venenosa. Finalmente alguém que come, dorme e não finge ser santa.
Naquela noite, Marina bloqueou a porta do escritório de Rafael.
— Vamos cancelar o noivado.
Ele levantou os olhos dos papéis.
— Motivo?
— Eu não sou boa o bastante para você.
Rafael voltou a ler.
— Ainda bem que sabe. Vai se adaptar.
Marina ficou sem reação.
O homem não colaborava.
O problema piorou quando Beatriz Duarte, sua meia-irmã, apareceu na mansão com uma cesta de frutas e um sorriso falso.
— Mana, fiquei tão preocupada com o sequestro…
Os olhos dela, porém, procuravam Rafael pela sala inteira.
Durante o chá, Beatriz pegou a chaleira e, fingindo tropeçar, virou água quente na direção de Marina.
O corpo de Marina reagiu antes da mente.
Ela segurou o pulso da irmã, girou levemente e a água caiu sobre o próprio vestido de Beatriz.
— Ai! Você torceu meu braço!
Rafael entrou exatamente nessa hora.
Beatriz começou a chorar.
— Rafael, eu só queria servir chá e ela me machucou!
Marina pensou: agora sim. Ele vai me odiar.
Rafael passou direto por Beatriz e segurou a mão de Marina.
— Queimou?
Beatriz congelou.
— Rafael, eu…
— Davi, acompanhe a senhorita até a saída. E avise a portaria para não deixar lixo entrar de novo.
Marina sentou no sofá, encarando o nada.
Aquele homem era o vilão frio da história. Então por que, toda vez que ela tentava ser insuportável, ele parecia gostar ainda mais?
Na manhã seguinte, quando saiu para caminhar, um carro branco parou na frente dela.
Caio, o ex-namorado da personagem original, desceu com cara de sofrimento ensaiado.
— Marina, eu sei que você está sofrendo com Rafael. Vem comigo. Eu te salvo.
Ela olhou para ele de cima a baixo.
— Você tem mais dinheiro que ele?
Caio travou.
— O amor é mais importante…
— Você luta melhor que ele?
Ele ficou pálido.
— Marina…
— E, principalmente, você é mais bonito que ele?
Caio abriu a boca, mas nada saiu.
— Então você não tem dinheiro, não tem força, não tem beleza e ainda quer que eu largue Rafael para fugir com você? Coragem não te falta.
Caio ficou furioso e avançou.
Antes que tocasse nela, uma sombra fria caiu sobre os dois.
Rafael estava atrás de Marina.
Seu olhar passou por Caio como se ele fosse uma barata.
— Entra no carro.
Marina entrou imediatamente. No banco de trás, tentou se explicar.
— Eu não tenho nada com ele.
— Sei.
No segundo seguinte, Rafael bateu a porta com tanta força que Davi, no volante, pulou no banco.
O celular de Marina vibrou.
Era uma mensagem de Davi:
“Senhorita, o chefe está com ciúme. Tenta acalmar.”
Marina encarou a tela, perdida. Na vida anterior, ela sabia 108 formas de matar um homem. Mas nenhuma de acalmar um homem com ciúme.
Pesquisou no Google escondida: “como acalmar namorado bravo”.
A resposta era: abraçar, beijar ou elogiar.
Ela descartou as duas primeiras por instinto de sobrevivência.
Virou-se para Rafael.
— Você é mais bonito que o Caio.
Rafael ficou imóvel.
— Também é mais rico.
A tensão no carro diminuiu.
Marina completou, orgulhosa:
— E com certeza vai viver mais.
Davi engasgou na frente. Rafael fechou a cara.
— Isso foi um elogio ou um atestado de óbito?
Marina piscou, sincera.
— Para mim, desejar vida longa é carinho.
Rafael a encarou por alguns segundos. Então riu de verdade.
E foi aí que Marina percebeu o perigo real.
Não eram os sequestradores. Não era a família falsa. Não era o ex interesseiro.
O perigo era que aquele homem estava começando a fazer seu coração, acostumado a não sentir nada, bater fora do ritmo.
E ela ainda nem sabia que a pior armadilha estava sendo preparada dentro da própria família Albuquerque.
PARTE 2
A festa de aniversário de Beatriz deveria ser o grande espetáculo da família Duarte. Na verdade, era uma vitrine para humilhar Marina e mostrar ao mundo que Beatriz seria a escolha perfeita para ficar ao lado de Rafael Albuquerque.
Marina só foi porque Dona Lurdes segurou sua mão e disse:
— Minha filha, se você não aparecer, eles vão pensar que ninguém te protege.
Rafael a acompanhou pessoalmente.
Quando Marina entrou no salão usando um vestido desenhado sob medida, elegante, vermelho fechado, com joias discretas e postura de quem não devia satisfação a ninguém, o sorriso de Beatriz quase caiu no chão.
Ela esperava que Marina vestisse a roupa barata que havia mandado de propósito.
No meio da festa, Beatriz puxou Caio para perto e começou o teatro.
— Mana, perdoa o Caio. Vocês se amavam tanto… Agora que você está com Rafael, não precisa destruir a vida dele.
O salão inteiro começou a cochichar.
Caio baixou a cabeça, fingindo dor.
— Eu só queria que você fosse feliz, Marina.
Marina suspirou.
— Vocês insistem em me dar trabalho.
Ela pegou o celular, conectou no som do salão e apertou play.
A voz de Caio explodiu nas caixas:
— Bia, relaxa. A burra da Marina já me deu dinheiro suficiente. Depois que eu conseguir arrancar o investimento da família dela, eu assumo você.
O silêncio foi imediato.
Beatriz ficou branca. Caio parecia prestes a desmaiar.
Marina bebeu um gole de champanhe.
— Por que está chorando, Bia? O dinheiro era meu, o chifre era meu, o golpe era contra mim. Você está emocionada por solidariedade?
Rafael deu um passo à frente e colocou o paletó sobre os ombros dela.
— Minha noiva não está disponível para julgamento público.
A partir daquela noite, os boatos mudaram. Marina Duarte não era mais a coitadinha. Era a mulher que tinha exposto a própria família em público.
Mas Rafael também começou a investigá-la.
Era impossível ignorar. Uma moça que antes chorava por qualquer coisa agora derrotava sequestradores, lia manipulações como relatórios e reagia a perigos antes mesmo que eles acontecessem.
Marina percebeu a vigilância e decidiu fingir melhor. Passou a gritar vendo filme de terror, dizer que tinha medo de rato e reclamar de barulho no escuro.
Até a noite em que a energia da mansão caiu.
Ela estava indo à cozinha procurar brigadeiro quando uma sombra atravessou a janela.
Assassino profissional.
O homem ergueu uma lâmina. Marina desviou, torceu o braço dele e o chutou contra a parede.
Quando a luz voltou, ela estava com uma perna ainda levantada. Rafael observava do topo da escada, braços cruzados.
O assassino no chão tossiu.
— Ela acertou meu ponto nervoso…
Marina abaixou a perna depressa.
— Eu… fiquei com medo e chutei sem querer.
Rafael desceu devagar.
— Marina, até quando vai continuar atuando?
A sala ficou fria.
Davi arrastou o invasor para fora. Rafael sentou no sofá e olhou para ela.
— Quem ensinou você a fazer isso?
— Sonhei.
— Péssima mentira.
Marina não respondeu.
Rafael tamborilou os dedos na mesa.
— Eu não preciso saber quem você era antes. Só preciso saber uma coisa: você fica comigo, cumpre o papel de minha noiva e eu protejo você dos Duarte, dos meus inimigos e de qualquer idiota que achar que pode tocar em você.
— E se eu quiser fugir?
— Eu vou atrás.
— E se eu lutar contra você?
Rafael inclinou a cabeça, com um meio sorriso perigoso.
— Vai lutar mesmo?
Marina desviou o olhar. Droga. O homem sabia usar beleza como arma.
Ela aceitou.
A vida ficou estranhamente confortável. Café pronto, motorista, roupas novas, comida boa, segurança e uma liberdade que ninguém jamais havia lhe dado.
Mas a paz durou pouco.
Na faculdade particular onde Marina estudava, Beatriz reinava entre os filhos de empresários, políticos e herdeiros mimados. Antes, todos humilhavam Marina. Agora, tentaram de novo.
Colaram cola industrial na cadeira dela.
Marina cheirou o ar, percebeu a armadilha, pegou a cadeira e trocou pela da menina que ria ao lado.
— Senta.
— Você está louca?
Marina apoiou a mão no ombro dela e empurrou de leve.
— Estou com preguiça de repetir.
A menina ficou colada na própria armadilha.
No mesmo dia, trancaram Marina no depósito para fazê-la perder uma apresentação. Ela abriu a porta com um grampo em 3 segundos, jogou as quatro culpadas para dentro e trancou pelo lado de fora.
Depois, apresentou sozinha um trabalho brilhante sobre lavagem de dinheiro em empresas de fachada, com tanta precisão que o professor ficou sem piscar.
À noite, Rafael já sabia de tudo.
— As câmeras da faculdade foram copiadas — disse Davi. — A diretoria vai punir as alunas amanhã.
Rafael colocou uma caixinha de veludo sobre a mesa.
Dentro havia uma pulseira de platina.
Marina ergueu a sobrancelha.
— Rastreador?
— Botão de emergência. Aperta uma vez e eu chego.
Ela fingiu desprezo, mas colocou a pulseira.
Naquela mesma semana, começou a perceber algo pior do que perigo: Rafael prestava atenção nela.
Se ela dizia que a comida estava sem tempero, o cardápio mudava no dia seguinte. Se reclamava de aulas extras, a agenda era cancelada. Se mencionava que gostava de jasmins, o jardim de rosas inteiro sumia e amanhecia coberto de flores brancas.
Aquilo assustava Marina mais do que qualquer arma.
Porque carinho cria raízes. E raízes viram fraqueza.
Certa noite, ela perguntou da varanda:
— Por que você é tão bom comigo?
Rafael ficou no jardim, olhando para cima.
— Porque você é minha noiva.
Mas, no escritório, horas depois, ele abriu uma gaveta trancada e tirou uma foto antiga.
Nela, uma menina magra segurava a mão de um menino machucado.
Anos antes, quando Rafael tinha 10 anos, foi sequestrado numa disputa interna da família Albuquerque. Ficou preso por 3 dias. Quem o salvou foi uma garotinha pobre que lhe levou água, comida e distraiu os sequestradores para que ele fugisse.
A menina era Marina.
Ela esqueceu tudo depois de uma febre grave.
Rafael nunca esqueceu.
E enquanto Marina tentava descobrir por que aquele mundo insistia em prendê-la ao lado dele, alguém enviou uma mensagem anônima ao celular dela:
“Você não é Marina Duarte.”
Pela primeira vez desde que acordara naquele livro, Marina sentiu um frio real subir pela espinha.
Alguém sabia.
E esse alguém estava perto demais.
PARTE 3
Marina segurou o celular com tanta força que seus dedos ficaram brancos.
“Você não é Marina Duarte.”
Um assassino, quando tem sua identidade exposta, pensa primeiro em eliminar a ameaça. Esse era o reflexo antigo dela. Localizar o número, rastrear o IP, descobrir o remetente e apagar qualquer rastro.
Mas antes que pudesse agir, a porta se abriu.
Rafael entrou segurando uma xícara de leite quente. Parou na hora ao sentir o ar pesado do quarto.
— O que aconteceu?
Marina bloqueou a tela.
— Nada. Mensagem idiota.
Ele não tentou arrancar o telefone da mão dela. Não levantou a voz. Apenas se aproximou devagar.
— Você pode ter segredos. Eu não vou forçar você a falar antes de estar pronta. Mas, se for perigo, eu preciso saber.
Marina ficou em silêncio por muito tempo. Depois, entregou o celular.
Rafael leu a mensagem. Seu rosto não mudou.
— Você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
— Se eu sou uma impostora.
Ele deixou o celular sobre a mesa e tocou de leve o cabelo dela.
— A mulher que está na minha frente, que discute comigo, que come escondido na cozinha, que quase matou metade dos meus inimigos sem borrar o batom… é a minha Marina. O resto eu descubro depois.
A garganta dela apertou.
Pela primeira vez, Marina não quis fugir.
A investigação de Rafael avançou rápido. Em 48 horas, Davi descobriu que o número anônimo, o sequestro inicial, a aproximação de Caio, o contato de Beatriz com criminosos rivais e até o vazamento de uma carga dos Albuquerque tinham a mesma origem.
O tio de Rafael, Augusto Albuquerque.
Augusto sempre quis o comando da família. Viu em Marina uma chance perfeita: se provasse que Rafael estava fraco por causa de uma mulher, poderia derrubá-lo diante dos sócios e aliados.
Beatriz e Caio eram só peças fáceis. Gente gananciosa, pequena e desesperada.
Marina ouviu tudo sem piscar.
— Então ele acha que eu sou o ponto fraco.
Rafael olhou para ela.
— Ele vai descobrir que você é o erro de cálculo.
Marina sorriu.
O plano foi simples: fingir uma briga pública.
Naquela noite, diante dos empregados e de alguns olhos comprados por Augusto, Marina jogou uma almofada em Rafael.
— Eu não aguento mais você! Esse noivado acabou!
Rafael fez cara de gelo.
— Sai. E não volta.
Marina pegou uma mala já cheia de salgadinhos, pijamas e documentos falsos de cena, e saiu batendo a porta.
No dia seguinte, a elite paulistana só falava disso: Rafael Albuquerque havia sido abandonado pela noiva.
Beatriz quase chorou de felicidade. Augusto abriu champanhe. Caio voltou a postar frases tristes nas redes sociais, como se tivesse sido o grande amor perdido.
Mas, todas as noites, Rafael subia pela varanda do quarto de Marina na casa dos Duarte levando comida.
— Você é um chefe do submundo ou um adolescente fugindo do pai? — ela sussurrou na primeira noite, puxando-o pela janela.
— Pela porta tem câmera.
— E cair do segundo andar é seguro?
Ele colocou uma marmita de pastel sobre a mesa.
— Para te ver, eu corro o risco.
Marina ficou vermelha e fingiu que estava muito interessada no pastel.
Durante esses dias, Beatriz perdeu totalmente a cautela. Entrava no quarto de Marina para provocar, dizia que logo seria a nova noiva de Rafael e que Marina voltaria a ser nada.
Marina apenas fingia tristeza.
Até Davi enviar a gravação.
A voz de Beatriz soava animada:
— Senhor Augusto, pode confiar. No jantar de reconciliação, eu vou fazer exatamente o que o senhor mandou. A Marina vai sair de lá destruída.
O jantar seria na mansão Albuquerque, com parentes, aliados e investidores. Augusto pretendia exibir provas falsas de que Marina traía Rafael com Caio, depois exigir que ela fosse expulsa e que Rafael perdesse apoio.
Marina escolheu um vestido preto simples, elegante, sem exagero. Entrou sozinha no salão, sob dezenas de olhares curiosos.
Beatriz veio ao encontro dela com vestido branco e lágrimas prontas.
— Mana, eu só quero sua felicidade. Talvez você e o Rafael não combinem. Talvez ele precise de alguém mais… doce.
Marina bateu palmas devagar.
— Bia, você é tão generosa. Quase me convence de que não está tentando roubar meu noivo desde o primeiro chá.
Alguns convidados riram baixo.
Beatriz ficou tensa.
Augusto se levantou, teatral.
— Marina, chega. Você trouxe instabilidade para essa família. Rafael se tornou imprudente por sua causa.
— Imprudente? — Marina inclinou a cabeça. — Interessante.
Ela pegou o celular e enviou um comando.
O telão do salão acendeu.
Primeiro apareceu a gravação de Beatriz combinando o plano. Depois, mensagens dela com Caio. Em seguida, transferências bancárias ligadas a Augusto. Por fim, áudios do próprio Augusto orientando criminosos a sequestrarem Marina para expor Rafael.
O salão explodiu em murmúrios.
Augusto ficou roxo.
— Isso é montagem!
A porta principal se abriu.
Rafael entrou com Davi, seguranças e dois advogados. Seu rosto estava calmo, mas seus olhos prometiam desastre.
— Então explique por que os homens presos no galpão citaram sua conta no exterior.
Caio, arrastado pelos seguranças, desmoronou em segundos.
— Foi a Beatriz! Ela disse que o tio Augusto pagaria! Eu só obedeci!
Beatriz gritou:
— Mentiroso! Você que queria o dinheiro da Marina!
Os dois começaram a se atacar verbalmente diante de todos. O grande plano de Augusto virou uma briga barata.
Marina puxou uma cadeira, sentou e pegou um docinho da mesa.
Rafael abaixou a voz perto dela.
— Está gostando?
— O brigadeiro está bom. O caos também.
Augusto percebeu que havia perdido. Desesperado, fez um sinal para dois homens avançarem sobre Marina.
Ela colocou o brigadeiro no prato com pesar.
— Que desperdício.
O primeiro homem tentou agarrá-la pelo braço. Marina girou o corpo, puxou o pulso dele e o jogou contra a mesa sem quebrar nada além do orgulho. O segundo veio por trás; ela acertou o joelho dele com precisão e o empurrou para os seguranças.
Em menos de 20 segundos, os dois estavam no chão.
O salão inteiro ficou mudo.
Dona Lurdes, sentada ao fundo, abriu um sorriso orgulhoso.
— Eu sabia que essa menina era um presente.
Rafael não parecia surpreso. Só caminhou até Marina e segurou sua mão.
— Acabou, tio.
Augusto tentou manter a postura, mas os próprios aliados começaram a se afastar. Ninguém queria cair junto. As provas eram suficientes para expulsá-lo dos negócios da família, bloquear suas contas e entregá-lo às autoridades por extorsão, fraude e associação criminosa.
Beatriz viu seu sonho virar pó. A família Duarte, já afundada em dívidas, perdeu o último apoio. O dinheiro desviado da herança da mãe de Marina foi rastreado. O pai dela tentou culpar todos ao redor, mas terminou sozinho numa casa vazia, sem investidores, sem prestígio e sem filha para usar como moeda.
Caio desapareceu das redes sociais depois que seus áudios viralizaram entre os conhecidos. O homem que se achava irresistível virou piada.
Na semana seguinte, Marina voltou à mansão Albuquerque.
Ela encontrou Rafael no jardim de jasmins, exatamente onde tudo havia começado a mudar por dentro.
— Então — disse ela — você ainda quer manter esse noivado depois de descobrir que sua noiva sabe derrubar homem adulto, invadir sala, abrir fechadura e provavelmente não pertence exatamente a este mundo?
Rafael se aproximou.
— Eu quero manter porque é você.
Marina respirou fundo.
— Eu nunca fui boa em ser amada.
— Eu também nunca fui bom em amar.
Ele segurou a mão dela, firme, mas sem prender.
— A gente aprende.
Marina olhou para os dedos dele entrelaçados aos seus. Em outra vida, mão estendida era armadilha. Naquela, talvez fosse abrigo.
— E se um dia eu quiser ir embora?
Rafael ficou em silêncio por um instante.
— Eu vou querer ir atrás. Mas não vou quebrar suas pernas.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Evoluiu.
— Dona Lurdes disse que isso atrapalha o romance.
Marina riu. Uma risada verdadeira, leve, quase estranha para alguém que tinha passado a vida entre sombras.
Meses depois, quando a poeira baixou, a história que circulava pela alta sociedade era outra: a noiva frágil de Rafael Albuquerque tinha destruído uma conspiração familiar, recuperado a própria herança e colocado traidores de joelhos sem perder a elegância.
Mas Marina não se importava com boatos.
Na varanda, olhando os jasmins balançarem com o vento, ela percebeu algo que nunca aprendera em nenhuma missão.
Sobreviver não era apenas escapar da morte.
Às vezes, sobreviver era aceitar que alguém podia conhecer seus monstros, seus segredos e suas cicatrizes… e ainda assim escolher ficar.
E, pela primeira vez em duas vidas, Marina Duarte também escolheu ficar.
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