
PARTE 1
— Você gosta tanto dessa atriz de ação assim? Então cuidado, amor… eu também sou uma assassina de primeira.
Caio levantou os olhos do celular e soltou uma risada cansada, como se eu tivesse feito a piada mais boba do mundo.
— Para de brincar, Lara. Toma seu remédio e vai dormir cedo. Eu tenho que viajar a trabalho por 3 dias, lembra?
Ele se levantou da mesa simples da nossa cozinha, guardou as sobras na geladeira, lavou dois pratos, ajeitou o cobertor no sofá e ainda conferiu se minha blusa estava fechada até o pescoço.
— Você vive pegando frio.
Era assim que ele me tratava havia 3 anos: como uma mulher frágil, doente, sem família e sem defesa. O namorado pobre, dedicado, que trabalhava demais e chegava em casa sorrindo com marmita barata na mão.
Só que, minutos depois que ele saiu, meu celular secreto vibrou.
Era uma encomenda.
R$ 1 milhão de entrada.
Prazo: 3 dias.
Alvo: eu.
Minha foto, meu nome verdadeiro, meus horários, minhas manias, o remédio que eu fingia tomar, até o fato de eu ter medo de ver sangue. O contratante exigia uma morte silenciosa, sem dor, depois das 22h, enquanto eu estivesse dormindo. Também havia uma observação curiosa:
“Se ela acordar, não diga que foi paga. Ela não pode saber.”
Fiquei olhando para a tela por um bom tempo.
No mundo onde eu realmente trabalhava, ninguém sabia tanto sobre mim. Ninguém, exceto Caio.
Por instinto, ainda tentei negar. Caio chorava quando eu tossia. Caio passava a mão na minha testa de madrugada. Caio dizia que, se algum dia ficasse rico, gastaria R$ 99 de cada R$ 100 comigo.
Mas, naquela noite, abri as notícias de entretenimento.
“O noivado da atriz Isadora Vale é cancelado após homem misterioso invadir festa e esvaziar salão de luxo.”
A foto borrada já tinha sido apagada em quase todos os sites, mas eu vi o suficiente. O homem de óculos escuros usava um terno impossível para alguém que dividia aluguel comigo. E, no pescoço, havia uma pinta escura que eu conhecia bem.
Liguei por vídeo.
Caio recusou na primeira chamada.
Logo depois, mandou mensagem:
“Por que ainda está acordada? Toma o remédio que deixei na cabeceira e dorme, meu amor.”
Peguei o comprimido. Cheirei. Não era meu remédio de sempre. Era um sonífero forte.
Então aceitei a verdade.
Meu namorado de 3 anos tinha saído para salvar o noivado de uma atriz famosa e, ao mesmo tempo, me contratado para morrer.
O mais ofensivo nem foi isso.
Por Isadora, ele gastou milhões para limpar um salão inteiro. Por mim, ofereceu só R$ 2 milhões… e ainda parcelado.
Respondi pelo meu celular comum:
“Amor, acho que tem alguém na porta. Estou com medo.”
Caio não respondeu ali.
Mas, na minha conta de trabalho, veio uma mensagem furiosa:
“Eu falei para não deixar ela perceber. Que tipo de profissional é você? Quer mais dinheiro?”
Em seguida, caiu mais R$ 1 milhão.
“Não faça nada hoje. Saia daí agora.”
Cinco minutos depois, Caio escreveu para mim:
“Não era nada, amor. Liguei para a portaria. Já resolveram.”
Sorri.
Ele ainda achava que estava protegendo a mulher frágil que mandara matar.
Mandei outra mensagem, com a voz mais triste que consegui:
“Desculpa atrapalhar sua viagem. Só estou com um pressentimento ruim. Sinto muito sua falta.”
Dessa vez ele mandou áudio.
— Não fala assim, Lara. Se você ficou desse jeito, a culpa é minha. Dessa viagem vai sair um bônus. Quando eu voltar, compro aquele pastel de feira que você gosta.
A voz era doce. Mas atrás dela havia música cara, risadas de gente rica e flashes de câmera.
Caio não estava viajando a trabalho.
Estava voltando para o mundo dele.
No dia seguinte, fui ao clube privado nos Jardins onde o rastreador dele havia parado. Entrei pelos fundos, usando uniforme de garçonete. Na porta de uma sala reservada, ouvi risadas.
— Então o grande Caio Alcântara cansou de brincar de pobre?
— Quando vai mostrar pra gente a namoradinha?
A voz dele respondeu, fria e leve:
— Brincadeira antiga. Vocês nunca vão conhecer.
Outra voz, feminina, entrou cortando:
— Espero mesmo. E bloqueia aquela coitada agora, se quiser que eu pense em te perdoar.
Peguei meu celular comum e escrevi:
“Amor, estou com saudade.”
Um ponto de exclamação vermelho apareceu.
Bloqueada.
Abri a conta secreta e mandei ao contratante:
“Vou agir hoje. O alvo está trabalhando num clube. Depois mando a foto.”
Lá dentro, o silêncio caiu.
A resposta veio em segundos:
“Do que você está falando? Ela não trabalha.”
Empurrei a porta com a bandeja na mão.
Caio estava no centro da sala, usando um terno sob medida e um relógio que pagaria 50 anos da nossa vida humilde. Ao me ver, ficou pálido. Virou o rosto como se eu fosse uma assombração.
Isadora Vale, linda e cruel, sorriu.
— A qualidade do serviço caiu mesmo. Agora qualquer uma entra sem bater?
Eu abaixei a cabeça.
— Desculpa, senhora. Sou nova aqui.
Ela se levantou devagar.
— Nova? Ou paparazzi? Acho que você está escondendo câmera no corpo. Tire a roupa para a gente conferir.
A sala explodiu em risadas.
Alguns olharam para Caio, esperando uma reação.
Ele não me defendeu.
Apenas baixou os olhos.
Então os amigos dele começaram:
— Tira logo.
— Se a Isadora mandou, obedece.
— Seu namoradinho pobre sabe que você trabalha aqui?
Eu deixei minha mão tremer. Tirei o casaco devagar, como uma mulher humilhada que não sabia se chorava ou fugia. Por dentro, contei quantas saídas havia, quantos homens armados, quantos copos poderiam virar lâminas.
Mas eu queria saber até onde Caio iria.
Um homem tocou meu rosto.
— Bonitinha demais pra servir bebida.
Empurrei a mão dele.
— Meu namorado é um homem bom. A gente trabalha, economiza, luta junto. Vocês nasceram ricos, não sabem o que é amar alguém de verdade.
O punho de Caio fechou em cima da mesa.
Antes que ele levantasse, peguei meu casaco e saí correndo.
Atrás de mim, ouvi vidro quebrando e gente gritando.
No corredor, mandei outra mensagem pela conta secreta:
“Ela está chorando na escada. Lugar perfeito. Posso terminar agora?”
Caio respondeu por áudio, desesperado:
— Não encosta nela. Sai de perto dela agora.
Eu sorri.
Não dava para acreditar no que estava prestes a acontecer.
PARTE 2
“Chefe, o prazo de 3 dias foi você que deu”, respondi pela conta secreta. “Se quer cancelar, isso muda o valor.”
Caio transferiu R$ 10 milhões.
“Não toque nela.”
Passei para o celular comum, ainda bloqueado, e enviei mensagens como se não soubesse de nada:
“Caio, por que você me bloqueou?”
“Perdi o único bico que tinha.”
“Talvez você esteja cansado de mim.”
“Desculpa por ser um peso.”
Mal apertei enviar, ele começou a ligar sem parar. Ignorei.
Peguei uma moto por aplicativo, desci perto da Ponte Estaiada e avisei pela conta secreta:
“Encontrei o alvo. Ela parece instável. Está na ponte com uma foto na mão. Se pular, ainda conta como serviço?”
Caio enlouqueceu.
Mensagens chegaram uma atrás da outra:
“Segura ela.”
“Fala comigo.”
“Eu pago o que quiser.”
“Ela não pode morrer.”
Eu mandei uma foto antiga minha com ele no parque de diversões. Naquele dia, eu tinha acabado de escapar da 15ª tentativa de vingança de um antigo inimigo. Mesmo assim, subi com Caio na roda-gigante e entreguei a ele quase todas as minhas economias, fingindo acreditar na empresa pequena que ele dizia querer abrir.
Ele chorou naquele brinquedo e prometeu:
— Quando eu vencer, você vence comigo.
Agora, do outro lado do telefone, a voz dele saiu quebrada:
— Pelo amor de Deus, salva ela. Eu pago. Só deixa ela viva.
Mais R$ 20 milhões caíram na conta.
Eu já tinha chamado uma ambulância antes de subir no parapeito.
Quando pulei, sabia exatamente onde cair.
Acordei no hospital com luz branca no rosto e a mão presa por outra mão. Caio dormia sentado ao lado da cama, ainda de terno caro, barba por fazer, olheiras profundas.
Quando tentei afastar os dedos, ele despertou no susto e me abraçou como se tivesse encontrado o corpo de alguém no fundo do mar.
— Lara… você quase me matou. Nunca mais faz isso. Nunca mais.
Ele chorava de verdade.
Quase tive vontade de rir.
— Amor — sussurrei — esse terno é bonito. Ontem vi um homem usando um igual no clube.
Caio travou.
— Deve ser… da mesma marca.
A televisão do quarto ligou sozinha quando minha mão bateu no controle.
“Isadora Vale dará coletiva hoje à tarde. Fontes afirmam que a atriz acusará uma mulher fora do meio artístico de destruir seu relacionamento com um empresário misterioso.”
Na tela, apareceu o vídeo do clube: eu tirando o casaco enquanto homens riam. A imagem era montada para parecer vulgar.
Caio arrancou o controle da cama.
— Não assiste isso.
Baixei os olhos.
— Desculpa. Eu não sabia que ela era famosa. Só queria ganhar um dinheiro pra ajudar você. Agora devo ter te causado problema.
Ele ficou parado, como se esperasse uma acusação. Quando percebeu que eu ainda fingia acreditar nele, desmoronou. Abraçou minha cintura e molhou a minha roupa com lágrimas.
— Não foi culpa sua. Eu vou resolver tudo. Vou cuidar de você. Vou te dar uma vida boa.
Empurrei o peito dele de leve.
— Mesmo assim, acho melhor a gente terminar. Você me bloqueou. Deve estar cansado.
Ele deu um tapa no próprio rosto, tão forte que o som ecoou no quarto.
— Foi sem querer. Olha aqui.
Mostrou o celular cheio de mensagens que eu não tinha recebido. Depois digitou uma transferência de R$ 100 mil, apagando alguns zeros para parecer compatível com a mentira do “bônus”.
— Viu? É todo meu dinheiro extra. Você nunca foi peso.
Eu sorri, encostando a testa nele.
Ele achou que tinha me recuperado.
No mesmo dia, pela conta secreta, recebi a última mensagem dele:
“Pagamento encerrado. Desapareça. Vou proteger Lara 24 horas por dia.”
Total até ali: R$ 33 milhões.
Agora eu usaria a frágil Lara para acabar de quebrar Caio por dentro.
Durante as semanas seguintes, ele virou outra pessoa. Parou de “viajar”, mudou a senha do celular para meu aniversário, me levava até para reuniões na Faria Lima e apresentava todos com um olhar que avisava: qualquer falta de respeito seria punida.
Derrubou contratos milionários só porque alguém me observou por tempo demais.
Depois da coletiva de Isadora, a internet me atacou. Nome, foto, endereço, tudo apareceu. Em menos de 2 horas, Caio apagou quase tudo. Comprou páginas, influenciadores, perfis falsos. Transformou Isadora em vilã e eu em vítima.
À noite, deitava ao meu lado e perguntava:
— Você me ama mais um pouco agora?
Eu respondia com silêncio.
Isso o enlouquecia.
Alguns dias depois, ele me levou à mansão real dele em Alphaville, jurando que tinha acabado de comprar. Havia roupas no meu tamanho, meus doces favoritos, meu shampoo, meu lado da cama montado como se eu sempre tivesse morado ali.
— Gostou?
— Gostei… mas sinto falta do nosso apartamento velho.
Ele apertou minha mão como quem segura areia escorrendo.
Para me acostumar ao verdadeiro mundo dele, levou-me à sede da empresa. Três andares inteiros, funcionários chamando-o de presidente. Todos me chamavam de “cunhada”.
No elevador, encontramos Isadora.
Ela estava magra, abatida, mas seus olhos ainda brilhavam como faca.
— Caio, preciso falar com você. Só 5 minutos.
Ele olhou para mim com pânico.
— Lara, eu e ela mal nos conhecemos.
Sorri.
— Vai. Eu espero.
Esperei 4 horas.
Quando Caio voltou, a camisa estava amassada e havia marca de batom no pescoço.
Ele me abraçou.
— Ela está destruída. Eu só quero ajudá-la uma última vez. Um filme, um contrato. Depois acaba.
Assenti.
A partir daquela noite, ele voltou a sumir.
E, às 3 da manhã de uma sexta-feira, quando chegou em casa e viu minha mão enfaixada, caiu de joelhos.
— Quem fez isso com você?
— Um homem na rua. Não sei.
Caio entendeu na hora. Tinha retirado os seguranças para vigiar Isadora.
O rosto dele ficou vazio.
— Eu quase te perdi de novo.
Naquela mesma noite, ele bloqueou Isadora, rompeu contratos e pediu casamento para a semana seguinte.
Mas, antes do casamento, recebi uma mensagem anônima:
“10h da manhã. Galpão abandonado na zona oeste. Venha, ou conto a ele quem você realmente é.”
Sorri.
Finalmente Isadora tinha decidido jogar direito.
PARTE 3
Fui ao galpão com tudo que precisava escondido no corpo: lâmina na manga, faca fina na sola, agulhas no grampo de cabelo. Mas entrei como Lara, a mulher fraca, assustada, fácil de prender.
O chão falso cedeu sob meus pés.
Quando acordei, estava amarrada a uma cadeira. Isadora Vale estava diante de mim, maquiada, impecável, bem diferente da atriz destruída que Caio acreditava estar salvando.
— Você demorou — ela disse.
Antes que eu respondesse, a porta de ferro foi arrombada.
Caio entrou como um homem possuído.
— Solta ela. O que você quiser, eu dou.
Isadora riu alto.
— Para de fingir, Caio. Você mesmo não mandou matar essa mulher primeiro?
O rosto dele perdeu a cor.
Ela jogou um dossiê no chão. Minha foto, meu nome, meu endereço, os detalhes da encomenda, até uma reserva de jazigo feita em meu nome.
Caio tentou correr para cobrir os papéis.
— Lara, não olha. Por favor, não olha.
Baixei os olhos para a papelada e falei baixo:
— Então era disso que você tinha medo.
Ele caiu de joelhos.
— Eu me arrependi na primeira noite. Eu juro. Eu estava cansado da vida simples, achei que você fosse me prender, que fosse estragar tudo com a Isadora… mas quando pensei que você ia morrer, eu entendi. Eu não vivo sem você.
As lágrimas escorriam pelo rosto dele. Pela primeira vez, Caio Alcântara não parecia herdeiro, empresário nem manipulador. Parecia apenas um menino mimado quebrado diante do brinquedo que tentou destruir.
Isadora bateu palmas devagar.
— Que lindo. Agora que todo mundo já chorou, vamos ao final.
As portas laterais se abriram. Homens entraram. Alguns eram inimigos meus de anos. Outros eram capangas comprados às pressas. Isadora tinha juntado gente que queria me cobrar dívidas antigas, gente que queria vingança e gente que achava que eu estava com dinheiro demais.
Caio se levantou tremendo.
— Isadora, pega minhas ações. Pega a empresa. Pega tudo. Só deixa Lara viva.
Ela jogou contratos aos pés dele.
— Assina.
Ele assinou sem ler.
Quando viu que eram transferências de participação, imóveis e direitos de produção, até pareceu aliviado. Achou que tinha salvado minha vida com dinheiro.
Foi nesse instante que Isadora olhou para mim e piscou.
Arrebentei as cordas.
O primeiro homem caiu antes de entender que a mulher amarrada não era vítima. O segundo largou a arma branca gritando quando desarmei seu pulso. Outros avançaram juntos e despencaram no buraco que eles mesmos tinham preparado no chão falso.
Tudo durou menos de 1 minuto.
Ficou silêncio.
Isadora me encarou como se eu fosse um fantasma, mesmo sabendo que aquilo fazia parte do plano. A atriz era boa, mas seu medo, naquele segundo, foi verdadeiro.
Peguei o contrato de jazigo no chão, dobrei e guardei no bolso.
— Uma lembrança — falei.
Caminhei para a saída.
— Lara! — Caio gritou atrás de mim. A voz dele estava rouca. — A assassina que recebeu minha encomenda… era você, não era?
Parei por um segundo.
Ele continuou:
— Eu vi seus exames depois do acidente de 3 anos atrás. Você tinha marcas antigas demais para uma mulher comum. Você sempre fingiu ser frágil. Todo esse tempo… você estava rindo de mim?
Virei o rosto e sorri.
— Chefe, finalmente sua inteligência apareceu. Como é a sensação de ser passado para trás pela própria encomenda?
Ele desabou.
— Então você nunca me amou?
A pergunta quase me irritou.
Eu tinha amado Caio quando ele parecia pobre, quando me entregava pastel de feira, quando dormia no ônibus e dizia que um dia me daria uma casa com varanda. Tinha amado tanto que quebrei contrato, perdi dinheiro, comprei proteção escondida para ele e escolhi uma vida pequena, limpa, quase humana.
Mas ele só percebeu meu valor quando achou que eu ia morrer por culpa dele.
— Quando eu te amei de verdade — respondi — você mandou me apagar.
Dei mais um passo.
Foi quando senti a picada na nuca.
Meu corpo amoleceu.
Caio me segurou antes que eu caísse. Havia uma seringa na mão dele e lágrimas nos olhos.
— Eu também tinha um plano — ele sussurrou. — Se eu não conseguisse te salvar, ia usar isso em mim. Mas você mentiu demais, Lara. Mentiu tão bem que agora somos iguais.
Ele me levantou no colo.
— Acabou. Não tem mais segredo. Você não vai embora.
Do lado de fora havia dois carros. O dele e o meu, discreto, parado como se fosse de algum funcionário perdido. Caio escolheu o meu.
Colocou-me no banco do passageiro, passou o cinto com cuidado, trancou as portas e ligou o motor.
— Você ainda está comigo — disse, acariciando meu rosto. — Isso prova que também não consegue me deixar.
Mesmo sem força, sorri.
— Não.
Ele me olhou.
— O quê?
— Tem uma coisa que você não sabe.
Caio pegou meu celular e abriu as conversas escondidas. Leu tudo.
Meses de mensagens entre mim e Isadora.
“Ele voltou para sua casa hoje?”
“Sim.”
“Chorei. Ele caiu.”
“Ótimo. Continue.”
“Você entende ele melhor do que eu.”
“Vivi 3 anos com ele.”
“E os seus inimigos?”
“Já estão mordendo a isca. Levo todos ao galpão.”
Caio ficou branco.
— Vocês duas…
— Sim — murmurei. — Ela queria sua empresa. Eu queria minha aposentadoria. Você queria ser disputado por duas mulheres. Todo mundo ganhou alguma coisa.
Ele balançou a cabeça, como se não conseguisse encaixar o mundo de novo.
— Isadora me amava.
— Isadora amava seus contratos. Sua influência. Seu dinheiro. Você era o papel principal que ela precisava interpretar para voltar ao topo.
As mãos dele apertaram o volante.
— E você? Não sentiu nada?
— Eu senti. Antes. Quando eu era burra o suficiente para acreditar no Caio do apartamento alugado. Mas a Lara que te amava morreu no dia em que você comprou a morte dela em promoção.
Ele tentou frear.
O pedal afundou.
O carro continuou ganhando velocidade pela avenida vazia.
Caio virou para mim, os olhos arregalados.
— O que você fez?
— Eu? Nada. O carro era meu. Você escolheu.
Na curva seguinte, o impacto veio seco, brutal, rápido. Eu sabia como cair, como respirar, como proteger o lado certo do corpo. Caio não. Ele nunca usava cinto quando achava que controlava tudo.
Quando abri os olhos, Isadora estava abrindo minha porta.
— Você é impossível — ela disse, me puxando com dificuldade. — Sobreviveu de novo.
— Sou cliente antiga de acidente de carro.
Ela olhou para o banco do motorista destruído.
— Ele morreu?
Virei o rosto por um instante.
— Morreu achando que ainda podia me trancar.
Isadora respirou fundo, sem fingir tristeza.
— Então acabou.
— Para você, começa agora. Coletiva, lágrimas, sequestro, fuga heroica, empresário obsessivo. O Brasil adora uma vítima bonita com boa iluminação.
Ela riu.
Um mês depois, Isadora voltou às capas como a atriz que escapou de um homem perigoso. Chorou no programa de domingo, ganhou contrato com streaming, virou símbolo de superação. Ninguém mencionou que ela assinara acordos no galpão. Ninguém perguntou demais. No Brasil, uma boa narrativa sempre corre mais rápido que a verdade.
Eu recebi R$ 80 milhões.
Paguei dívidas antigas, apaguei rastros, comprei uma casa em uma praia onde ninguém sabia meu nome e joguei fora todos os remédios falsos que um dia Caio colocou na minha cabeceira.
Às vezes, quando passo por uma feira e sinto cheiro de pastel, lembro do homem que prometeu gastar R$ 99 de cada R$ 100 comigo.
Depois lembro que ele queria economizar até na minha morte.
E sorrio.
Porque amor sem respeito não é destino. É armadilha.
E toda armadilha, mais cedo ou mais tarde, também prende quem a construiu.
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