
PARTE 1
— Júlia, me desculpa… eu só te vejo como uma irmã.
A frase caiu no meio da festa de volta às aulas como um copo quebrando no chão. Por 3 segundos, ninguém respirou. A música continuou tocando no salão alugado perto da faculdade, mas parecia vir de outro mundo.
Júlia Nunes ficou parada diante de Pedro Azevedo, segurando o buquê pequeno que tinha comprado com o dinheiro que guardara do estágio. Durante 2 anos, ela tinha acreditado que aquilo entre eles era quase namoro. Pedro sentava com ela na biblioteca, mandava mensagem de madrugada, cobrava presente no aniversário, no Dia dos Namorados, até no “mêsversário” de amizade que ele mesmo inventara. Quando alguma menina se aproximava dele, ele fazia cara feia. Quando Júlia se afastava, ele dizia que sentia falta.
E agora, diante de metade da turma, dizia que ela era “como uma irmã”.
O rosto dela queimou. Alguns colegas fingiram mexer no celular. Outros olharam com pena. Pedro ainda completou, num tom baixo, como se estivesse sendo bondoso:
— Você é especial pra mim. Só não desse jeito.
Júlia sorriu sem sentir a boca. Depois virou de costas e saiu antes que as lágrimas começassem a cair. Entrou no corredor do bar universitário, abriu a primeira porta que viu e se trancou num camarote vazio. Apagou a luz e se encolheu no canto, chorando como se tivesse perdido algo muito maior do que um amor não correspondido.
Ela só queria ter sido escolhida uma vez.
Então, no escuro, ouviu um suspiro.
Júlia congelou. Antes que alcançasse o interruptor, uma mão segurou seu pulso. No segundo seguinte, alguém a puxou e beijou sua boca.
Foi rápido, quente, com gosto de bebida doce. Por puro susto, Júlia reagiu do único jeito que conseguiu: deu um tapa.
A luz acendeu.
Diante dela estava Caio Duarte, o cara mais comentado da faculdade. Filho de empresário, repetente por escolha, lindo de um jeito irritante, arrogante de um jeito pior ainda. O tipo de aluno que chegava de moto cara, entrava atrasado, dormia na aula e mesmo assim fazia metade do campus olhar.
Na bochecha dele, 5 dedos vermelhos começaram a aparecer.
— Você é maluca? — ele rosnou, levando a mão ao rosto.
— Eu sou maluca? Você me beijou no escuro!
A porta abriu de repente. Dois amigos de Caio apareceram rindo.
— Ih, Caio… mais uma chorando por sua causa?
Caio lançou um olhar tão frio que os dois calaram na hora.
Júlia aproveitou a confusão para fugir. No corredor, esbarrou justamente em Pedro. Ele olhou para a boca dela, ainda marcada pelo batom borrado, e fechou a cara.
— Sério isso, Júlia? Eu te rejeitei e você correu pros braços daquele tipo de cara?
Ela demorou um segundo para entender.
— Não foi isso. Ele me beijou sem eu esperar.
Pedro soltou uma risada curta, amarga.
— Ninguém beija uma garota do nada se ela não dá abertura.
A frase doeu mais que a rejeição. Júlia olhou para ele como se o visse de verdade pela primeira vez.
— Então é isso que você pensa de mim?
Ele desviou os olhos.
— Só estou dizendo para você não se misturar com gente como Caio. Ele fuma, briga, some em festa, troca de namorada como troca de camisa. Se você se envolver com ele, vai estragar sua vida.
Júlia engoliu o choro. Passou papel na boca até a pele arder e voltou para o banheiro tentando apagar o batom, a vergonha e a sensação horrível de ter gostado de alguém que nunca a respeitou de verdade.
Na manhã seguinte, a faculdade inteira comentava a mesma coisa: “Caio Duarte foi largado por Bianca Rocha”.
A história tinha crescido durante a madrugada. Diziam que Caio perdera uma aposta, recusara beijar Bianca na frente dos amigos e, minutos depois, beijara outra garota escondido. Bianca, a ex dele, conhecida por não aceitar perder nada, teria terminado com ele aos gritos.
O problema era que agora todo mundo queria saber quem era a tal garota.
Júlia sentiu o estômago afundar quando ouviu duas meninas falando no corredor:
— Se Bianca descobrir, coitada. A última que mandou bilhete pro Caio saiu do banheiro encharcada, chorando.
O celular dela vibrou. Era Pedro, mandando prints de postagens anônimas: “Vamos limpar o campus de interesseiras.”
Logo depois, a mensagem dele apareceu:
— Viu onde você se meteu?
Júlia digitou tremendo:
— Se Bianca vier atrás de mim, você vai falar que foi um mal-entendido?
A resposta veio seca.
— O problema é seu.
Foi nesse instante que Júlia entendeu: Pedro não era tímido, nem confuso, nem protetor. Ele era covarde.
E ela estava sozinha.
Desesperada, decidiu procurar Caio. Afinal, ele tinha causado tudo. Ele precisava explicar.
Quando chegou ao prédio da república onde ele morava, bateu na porta e quase se arrependeu no mesmo segundo. Caio abriu usando apenas uma bermuda, o cabelo bagunçado, a expressão de quem tinha acabado de acordar.
— Quem é você?
Júlia ficou vermelha até a raiz do cabelo.
— Eu sou a garota que você beijou ontem.
Ele bocejou.
— Não lembro.
A humilhação subiu pela garganta dela como fogo.
— Você me beijou no camarote, eu te dei um tapa, Bianca acha que eu roubei o namorado dela e agora quer me destruir. Dá pra você explicar que eu não tive nada a ver com isso?
Caio apoiou o braço no batente.
— Por que eu faria isso?
— Porque foi culpa sua!
Ele sorriu sem humor.
— Eu só ajudo mulher minha.
Júlia piscou, sem acreditar. Por puro desespero, falou antes de pensar:
— Então como eu viro mulher sua?
O sorriso dele mudou. Ficou lento, perigoso, divertido.
— Entra. Eu te ensino.
Júlia deu 2 passos para trás, o coração batendo na garganta.
— Esquece. Prefiro morrer de medo da Bianca.
Ela saiu quase correndo, ouvindo a risada dos amigos dele atrás da porta. Mas, quando atravessou o pátio da faculdade naquela tarde e viu Bianca Rocha vindo em sua direção com 4 meninas atrás, usando salto alto, vestido vermelho e um sorriso de veneno, Júlia percebeu que talvez morrer de medo não fosse só força de expressão.
E o pior ainda estava para começar.
PARTE 2
Bianca parou a poucos metros de Júlia, cruzando os braços como se estivesse diante de uma empregada que tinha quebrado um vaso caro.
— Então é você?
Júlia sentiu as pernas enfraquecerem. Atrás dela, Pedro apareceu, mas não para defendê-la. Veio com um sorriso nervoso, olhando para Bianca como quem pede aprovação.
— Eu trouxe ela pra conversar — disse ele.
Júlia virou o rosto devagar.
— Você me chamou aqui como isca?
Pedro ficou sem graça.
— Não exagera. Eu só queria que vocês se entendessem. A Bianca merece saber a verdade.
Júlia riu, mas foi um riso sem alegria.
— Você é pior do que eu pensava.
Bianca deu um passo à frente.
— Fica calma. Eu só quero ouvir da sua boca por que você beijou o meu namorado.
— Ex-namorado — Júlia respondeu, antes que o medo mandasse sua boca calar.
O olhar de Bianca endureceu.
Ao longe, na quadra, Caio jogava basquete com os amigos. Júlia viu ali sua única chance. Saiu andando rápido, quase tropeçando, e parou diante dele ofegante.
— Caio, por favor. Fala pra Bianca que aquilo foi um mal-entendido.
Ele quicou a bola uma vez, sem pressa.
— Se vira.
A resposta cortou o resto da coragem dela.
Júlia ficou parada, os olhos enchendo de lágrimas. Um dos amigos de Caio cutucou o outro, desconfortável.
— Pô, Caio, a menina vai chorar de novo.
Caio jogou a bola no chão com força.
— Quem mandou ela vir atrás de mim?
Júlia perdeu o controle. Chorou mesmo, ali, diante de todos.
— Eu só quero que você diga a verdade. Só isso.
Caio passou a mão no cabelo, irritado.
— Eu já falei. Eu só resolvo problema de namorada minha.
Os amigos dele começaram a rir e provocar:
— Então vira namorada dele, Júlia. Com Caio do seu lado, ninguém encosta em você.
Ela deveria ter ido embora. Deveria ter entendido o aviso. Mas Bianca se aproximava, Pedro continuava calado, e a humilhação de ser abandonada por todos fez algo quebrar dentro dela.
Júlia olhou para Caio.
— Então vamos namorar.
Caio ficou imóvel por 3 segundos.
— Você não sabe com quem está brincando.
— Sei o suficiente.
Ele riu de canto.
— Você não faz meu tipo. Boazinha demais.
Júlia sentiu uma coragem absurda subir. Aproximou-se, ficou na ponta dos pés e beijou Caio na frente da quadra inteira.
O pátio explodiu em gritos.
Caio, que parecia nunca ser surpreendido por nada, ficou olhando para ela como se tivesse levado outro tapa.
— Agora eu faço?
Ele segurou o pulso dela e sorriu.
— Ainda não. Mas melhorou.
A notícia se espalhou antes do fim da aula: Júlia Nunes tinha beijado Caio Duarte no meio do campus. Vídeos apareceram em grupos, comentários, páginas anônimas. Algumas meninas chamavam Júlia de corajosa. Outras diziam que ela estava se achando. Bianca desapareceu por 2 dias, o que deixou tudo ainda mais assustador.
Caio levou Júlia para seu apartamento naquela noite, só para fugir da confusão. Ele tomou banho, apareceu de cabelo molhado e pediu que ela secasse com o secador. Júlia tentou agir com naturalidade, mas o coração dela parecia um tambor.
— Por que você usa esse cabelo cinza? — ela perguntou, tentando disfarçar o nervoso.
— Quer mandar em mim também?
— Não. Só perguntei.
— Meu pai também tentou mandar. Não deu certo.
Ela percebeu que havia uma história ali, mas ele fechou o rosto antes que ela perguntasse.
Naquela mesma semana, Caio a levou para jantar com os amigos. Quando um deles colocou um copo de bebida forte na frente de Júlia, Caio pegou antes dela e virou tudo de uma vez.
— Ela não bebe.
— Tá protegendo mesmo, hein? — o amigo zombou.
— Estou.
Foi a primeira vez que Júlia sentiu que talvez aquilo não fosse só encenação.
Mas, depois desse jantar, Caio sumiu por 8 dias.
Sem mensagem, sem ligação, sem explicação. Júlia descobriu, da pior forma, que não tinha nem o número dele direito. Começou a se sentir ridícula. Talvez ele só tivesse brincado. Talvez Bianca estivesse certa. Talvez todo mundo estivesse certo.
Uma noite, saindo da biblioteca, Pedro apareceu.
— Júlia, a gente precisa conversar.
— Não precisa.
Ele segurou o braço dela.
— Eu errei. Mas você está se perdendo com Caio. Ele nunca vai levar você a sério.
Antes que ela respondesse, uma voz fria veio da escuridão:
— Solta a mão dela.
Caio estava ali, com olheiras, barba por fazer e uma mochila jogada no ombro. Parecia mais perigoso do que nunca.
Júlia sentiu raiva antes de sentir alívio.
— Agora você aparece?
Caio estreitou os olhos.
— Eu saio de uma competição sem celular, pego o primeiro ônibus de volta e encontro minha namorada com outro cara segurando o braço dela?
— Competição?
— Interatlética. A gente entregou os celulares. Eu não consegui avisar.
O orgulho de Júlia rachou no meio.
— Eu achei que você tinha terminado comigo.
Caio soltou uma risada curta, quase dolorida.
— Você termina comigo sozinha e ainda me acusa?
Pedro tentou falar, mas Caio deu um passo e ele recuou.
— Nunca mais encosta nela.
Depois daquela noite, Caio e Júlia trocaram números, mensagens, senhas de chamada de vídeo e uma rotina grudenta que fez a faculdade inteira comentar. Júlia quase esqueceu Bianca.
Quase.
Na sexta-feira, quando saiu do laboratório, Bianca e 4 meninas a puxaram para dentro do banheiro do subsolo. Uma delas arrancou o celular da mão de Júlia no exato momento em que ela conseguiu gritar:
— Caio, me ajuda!
Bianca desligou a chamada e sorriu.
— Agora vamos ver se ele chega a tempo.
PARTE 3
A primeira água gelada caiu sobre Júlia como uma punição pública que ninguém podia ver.
Ela tentou gritar, mas outra menina segurou seu rosto contra a parede. O banheiro do subsolo não tinha janela, não tinha movimento, não tinha câmera. Só o som das risadas, do balde enchendo na pia e dos saltos de Bianca batendo devagar no piso molhado.
— Você achou mesmo que Caio gostava de você? — Bianca perguntou, inclinando-se perto dela. — Ele só queria me provocar. Você foi a trouxa que apareceu no caminho.
Júlia tossiu, tremendo. A água escorria pelos cabelos, pela blusa, pelos tênis. O frio entrava nos ossos.
— Ele terminou com você — ela conseguiu dizer.
O sorriso de Bianca desapareceu.
— Ele sempre volta.
Outro balde veio. Júlia perdeu o equilíbrio e caiu sentada, abraçando o próprio corpo. A humilhação doía mais do que o frio. Ela pensou em Pedro, que a vendera por uma chance com Bianca. Pensou em todas as vezes em que confundira atenção com amor. Pensou em Caio dizendo que a protegeria.
Então a porta explodiu contra a parede.
Caio entrou como uma tempestade.
Por um segundo, ninguém se mexeu. O rosto dele estava pálido, os olhos vermelhos, a respiração descontrolada. Atrás dele vinham 3 amigos, assustados de verdade.
— Júlia.
Ele atravessou o banheiro e se ajoelhou ao lado dela, tirando a jaqueta para cobri-la. A mão dele tremia quando tocou o rosto dela.
— Me desculpa. Eu cheguei tarde.
Júlia tentou sorrir.
— Chegou.
Caio levantou devagar e olhou para Bianca. A voz dele saiu baixa, pior do que um grito.
— Você encostou nela.
Bianca arregalou os olhos, tentando parecer ofendida.
— Ela roubou você de mim!
— Eu nunca fui seu.
As meninas que ajudaram Bianca começaram a recuar. Caio apontou para o chão molhado, para os baldes, para Júlia tremendo.
— Vocês têm 10 segundos para ligar para a coordenação e confessar tudo. Se não fizerem, eu mesmo mando os vídeos.
Bianca riu nervosa.
— Que vídeos? Aqui não tem câmera.
Um dos amigos de Caio ergueu o celular.
— Mas tem áudio da chamada que ela deixou aberta. E tem a gente chegando. Fora as marcas nela.
O rosto de Bianca mudou. Pela primeira vez, ela pareceu entender que tinha perdido o controle.
Caio não permitiu vingança física. Essa foi a primeira coisa que surpreendeu Júlia. Ele, que todo mundo chamava de brigão, respirou fundo, pegou-a no colo e disse aos amigos:
— Chamem a segurança. Agora.
Naquela noite, Bianca e as 4 meninas foram levadas para a sala da direção. A família de Júlia foi chamada. O pai de Bianca tentou abafar o caso, dizendo que era “coisa de jovem”, mas Caio chegou com o próprio pai e uma advogada. Pela primeira vez, Júlia viu Antônio Duarte, empresário conhecido por ter doado parte do prédio novo da faculdade.
Antônio não levantou a voz. Não precisou.
— Minha influência não será usada para proteger meu filho — disse ele diante da direção. — E também não será usada para proteger agressoras.
Bianca foi suspensa, perdeu a bolsa de monitoria e respondeu a processo disciplinar. As outras meninas assinaram confissão. Pedro, citado por Júlia como quem a havia levado até Bianca dias antes, perdeu o estágio indicado pela faculdade e passou a ser visto como o covarde que sempre fora.
Mas a consequência mais inesperada veio 2 dias depois, quando Júlia foi chamada à direção e encontrou Antônio sozinho na sala.
Ela entrou tensa, achando que ele ofereceria dinheiro para ela se afastar de Caio.
— Sente-se, Júlia — ele pediu.
Ela obedeceu.
Antônio a observou por alguns segundos. Parecia cansado, mas não cruel.
— Eu sei que você namora meu filho.
Júlia engoliu seco.
— Sim, senhor.
— E sei que ele gosta de você mais do que admite.
Ela ficou vermelha.
— Eu não vim pedir para você terminar. Vim pedir ajuda.
Júlia piscou.
Antônio apoiou as mãos sobre a mesa.
— Caio era um dos melhores alunos do colégio. Passou nessa faculdade sem precisar de influência minha. Mas, depois que a mãe dele morreu, ele desmoronou.
A voz dele falhou por 1 segundo.
— Ela teve depressão por anos. Eu não percebi como deveria. Caio me culpa. Talvez com razão. Desde então, ele faz questão de destruir tudo que eu tento construir para ele. Reprova, briga, some, finge que não se importa. Mas ele se importa com você.
Júlia sentiu um nó na garganta.
— O senhor quer que eu faça ele estudar?
— Quero que você mostre a ele que futuro também é uma forma de amor. Se ele continuar assim, não vai conseguir nem cuidar da própria vida. E, se ele quiser ficar com você, precisa aprender a construir algo que não dependa do meu dinheiro.
Antônio fez uma pausa.
— Se ele passar este ano sem reprovar, eu não me meto no relacionamento de vocês. Se não passar, vou mandá-lo para fora do país para trabalhar comigo. Longe daqui. Longe de você.
Júlia saiu daquela sala com o coração pesado.
Encontrou Caio na quadra, jogando basquete como se o mundo não existisse. Esperou ele parar e falou:
— Como estão suas notas?
Ele riu.
— Péssimas. Por quê?
— Porque a partir de hoje você vai estudar.
O sorriso dele sumiu.
— Não começa.
— Caio, eu estou falando sério.
— Eu não preciso disso.
— Precisa, sim. Não por seu pai. Por você. Por nós.
Ao ouvir “nós”, ele fechou a cara.
— Meu pai falou com você.
Júlia não respondeu. E o silêncio bastou.
— Eu sabia. Aquele velho não consegue deixar nada em paz.
— Ele perdeu sua mãe também.
Caio virou o rosto, ferido.
— Não fala dela.
— Então para de usar sua dor para destruir sua vida.
A frase saiu mais dura do que Júlia queria. Caio ficou imóvel. Ela sentiu vontade de chorar, mas continuou:
— Eu gosto de você. De verdade. Mas eu não quero amar alguém que se recusa a tentar viver. Eu não quero ser só a menina que você protege. Eu quero ser alguém que caminha do seu lado.
Ele olhou para ela por muito tempo.
— E se eu não conseguir?
— Eu estudo com você.
— E se eu odiar?
— Você vai odiar comigo do lado.
Caio riu sem alegria, mas os olhos dele estavam úmidos.
— Você é muito mandona para uma menina que chorava por qualquer coisa.
— E você fala demais para quem está com medo.
Foi a primeira vez que ele não fugiu.
Na semana seguinte, Caio apareceu na biblioteca. A faculdade inteira parou para olhar. Ele sentou ao lado de Júlia, abriu o caderno novo e cochichou:
— Se eu dormir, você me bate.
— Eu não bato.
— Bateu no dia em que me conheceu.
— Você mereceu.
Ele sorriu. E estudou.
No começo, foi um desastre. Caio reclamava, rabiscava o canto do livro, inventava fome, sono, dor nas costas. Júlia perdia a paciência, ele roubava beijos para escapar de exercícios, ela o empurrava de volta para as apostilas. Mas, pouco a pouco, algo mudou.
Ela descobriu que ele não era burro. Pelo contrário. Aprendia rápido demais. Só tinha passado anos fingindo que não se importava, como se fracassar fosse uma forma de ferir o pai.
Quando tirou a primeira nota alta, Caio jogou a prova na mesa de Júlia com um orgulho disfarçado.
— Pronto. Feliz?
Ela olhou a nota e sorriu tanto que ele ficou sem graça.
— Muito.
— Então cadê meu prêmio?
— Seu prêmio é passar de semestre.
— Que namoro explorador.
No fim do ano, Caio não reprovou em nenhuma disciplina. No semestre seguinte, ficou entre os melhores da turma. A notícia correu o campus com mais força do que qualquer fofoca sobre briga ou beijo.
Antônio apareceu para parabenizá-los e entregou a Júlia um cartão.
— Não é pagamento — disse ele, antes que ela recusasse. — É um presente para minha futura nora.
Júlia quase derrubou a bolsa.
Caio pegou o cartão e colocou na mão dela.
— Aceita. Dinheiro dele pelo menos serve para alguma coisa.
Antônio riu, mas seus olhos ficaram brilhantes. Pai e filho ainda não estavam curados. Talvez demorasse anos. Mas, naquele dia, quando Caio não soltou a mão de Júlia diante dele, alguma parede antiga pareceu rachar.
Meses depois, na semana da formatura de Caio, ele apareceu no apartamento com 2 passagens.
Júlia leu os nomes, confusa.
— Salvador?
— Você sempre disse que queria ver o mar da Bahia.
Ela levantou os olhos.
Caio estava diferente do garoto arrogante que a beijara no escuro. Ainda tinha o sorriso atrevido, a beleza perigosa, a mania de provocá-la. Mas agora havia calma nele. Havia escolha.
— É sua viagem de formatura — ela disse.
— Não. É nossa primeira viagem de futuro.
Júlia sentiu o rosto esquentar.
— Futuro?
Caio segurou sua mão com firmeza.
— Você disse que queria caminhar do meu lado. Então anda logo, Júlia. Eu estou tentando aprender o caminho.
Ela riu com os olhos cheios de lágrimas.
Dessa vez, não chorou por rejeição, medo ou vergonha. Chorou porque, pela primeira vez, alguém que parecia destinado a quebrar tudo decidiu se reconstruir para ficar.
E talvez fosse isso que muita gente não entendia: amor não salva ninguém sozinho. Mas, quando 2 pessoas escolhem mudar, uma pela outra e por si mesmas, até uma história que começou com um tapa, um escândalo e um beijo errado pode terminar como a coisa mais certa da vida.
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