
PARTE 1
—Nenhum homem decente vai procurar esposa em um quarto enterrado na terra —disse dona Remedios, tão alto que todos na venda se viraram para olhar Valeria.
A jovem não respondeu.
Tinha 24 anos, as mãos cobertas de farinha e uma cesta de pães ainda mornos apertada contra o peito. O calor do meio-dia caía sobre San Miguel del Llano como uma laje, e mesmo assim os dedos de Valeria Herrera tremiam, não por causa do sol, mas pela risadinha baixa que saiu da mesa onde estavam sentadas 3 mulheres do povoado.
—Deixe-a, Remedios —murmurou seu Chuy, o dono da venda—. Os pães dela acabam antes mesmo de eu terminar de abrir.
—Isso não muda o que ela é —respondeu a mulher, olhando Valeria de cima a baixo—. Uma moça vivendo sozinha numa caverna junto ao riacho. Depois ainda se perguntam por que ninguém a pede em casamento.
Valeria deixou os pães sobre o balcão com cuidado. Não iria chorar ali. Não na frente delas.
Desde que seus pais morreram, já tinha ouvido de tudo. Que era estranha. Que era orgulhosa. Que deveria ter ido morar com os tios em Durango. Que uma mulher sozinha não devia cortar lenha, acender fornos nem dormir sob um teto de terra. Mas ninguém havia oferecido ajuda sem cobrar depois com humilhações.
Por isso ela escolheu o velho cômodo escavado na loma junto ao riacho. Não era uma casa bonita. Tinha paredes de adobe úmido, uma porta baixa, uma cama de madeira, uma mesa manca, um espelho manchado e um forno de barro que ela mesma levantou tijolo por tijolo.
Não era luxo.
Era dela.
Todas as madrugadas, antes que os galos cantassem, Valeria acendia o forno. Misturava farinha, água, sal e fermento com uma paciência que nascia da dor. Sovava até a massa respirar sob suas palmas. Enquanto outras moças se arrumavam para a missa ou para os bailes de domingo, ela esperava o pão crescer em silêncio.
Aquele pão era a única coisa que o povoado não ousava desprezar.
Compravam rápido, embora depois falassem dela.
Naquela manhã, deixou 8 peças na venda de seu Chuy e pegou as moedas que ele colocou em sua palma.
—Estou te devendo mais 2, Valeria. Os de ontem venderam em menos de 1 hora.
—Amanhã trago mais.
—Não fique sem comer para vender tudo.
Ela tentou sorrir.
—Eu sei guardar o meu.
Mas, ao sair, ouviu outra vez dona Remedios:
—Pão gostoso ela faz. Pena que mulher nenhuma se casa com o próprio forno.
Valeria continuou caminhando de cabeça erguida até dobrar a esquina. Só então baixou os olhos.
Ela não sabia que, 15 minutos depois, um homem entraria na venda e compraria um pão sem saber que aquele pão mudaria sua vida.
Chamava-se Mateo Salcedo.
Tinha 34 anos e era dono do rancho El Encino, uma grande propriedade ao norte do povoado, com vacas, cavalos, trabalhadores e uma casa ampla que sempre parecia vazia demais. Seu pai havia morrido 4 anos antes, e sua mãe, dona Catalina, vivia lembrando que um homem com terras precisava de uma esposa de boa família.
Mateo nunca respondia.
Não lhe faltavam propostas. As filhas de fazendeiros o cumprimentavam com sorrisos longos. Viúvas lhe mandavam tamales “por cortesia”. Sua mãe lhe apresentava moças de vestidos limpos, sobrenomes conhecidos e mãos macias.
Mas nada permanecia nele.
Naquele dia, entrou para comprar café, pregos e sal para o rancho. Enquanto seu Chuy pesava os grãos, Mateo viu o pão sobre o balcão.
Não tinha enfeites. A casca estava dourada, firme, aberta com 3 cortes perfeitos. Cheirava a lenha, manteiga e algo doce que ele não conseguia nomear.
—Esse pão é de quem? —perguntou.
Seu Chuy sorriu.
—De Valeria Herrera. A moça do riacho.
Mateo não conhecia aquele nome.
Comprou uma peça.
Ao chegar ao rancho, sentou-se na cozinha e cortou um pedaço. A casca fez um som ao se partir. O vapor subiu suave, como se o pão guardasse dentro de si uma manhã inteira.
Mateo deu uma mordida.
E ficou imóvel.
Não era apenas pão. Tinha gosto de paciência. De lar. De mãos que tinham aprendido a oferecer calor mesmo quando ninguém o devolvia.
Naquele instante, a enorme cozinha do rancho lhe pareceu mais fria do que nunca.
—Quem fez isso? —murmurou.
Não terminou o café. Não revisou os currais. Não esperou o sol baixar.
Voltou a selar o cavalo e retornou ao povoado com metade do pão embrulhada em papel pardo.
Quando entrou novamente na venda, seu Chuy levantou a sobrancelha.
—Esqueceu alguma coisa, don Mateo?
Mateo colocou o pão sobre o balcão.
—Preciso saber onde mora a mulher que fez isto.
O vendedor o olhou com cuidado.
—Valeria não recebe visitas.
—Não vou incomodá-la.
—Todos dizem isso.
Mateo não desviou o olhar.
—Só quero falar com ela.
Seu Chuy suspirou e apontou para o caminho de terra.
—Siga reto até o caminho acabar. Onde começa o riacho, verá fumaça saindo de uma loma. É ali que ela mora.
Mateo cavalgou sem entender por que o coração lhe pesava daquela forma.
O povoado ficou para trás. As casas foram ficando pequenas. Os nopais apareceram junto ao caminho e, mais adiante, a fumaça.
Uma coluna cinza saía da terra.
Mateo desceu do cavalo e caminhou até a porta baixa. Antes de bater, ele a viu.
Valeria estava de costas, tirando pães do forno com um pano grosso. Usava um vestido simples, o cabelo preso de qualquer jeito e farinha até os pulsos. O cômodo cheirava a barro úmido, lenha e pão recém-assado.
A sombra de Mateo atravessou o chão.
Valeria se virou de repente.
Seus olhos se abriram com medo.
—O que o senhor quer?
Mateo levantou o pão como se fosse uma prova.
—Preciso lhe perguntar uma coisa.
Ela engoliu em seco.
—Se veio fazer encomenda, fale com seu Chuy.
—Não vim por encomenda.
O silêncio se apertou entre os 2.
Mateo olhou para o forno, para a mesa, para as paredes de terra. Depois olhou para as mãos dela.
—Foi a senhora que fez este pão?
Valeria se endireitou, como se esperasse uma zombaria.
—Sim.
Mateo baixou a voz.
—Então quero comprar todos os que tiver.
Ela piscou.
—São para a venda.
—Pagarei a seu Chuy. E quero mais 10 para sexta-feira.
Valeria não soube o que dizer.
Ninguém havia chegado até ali por ela. Ninguém havia cruzado o caminho empoeirado para olhar seu trabalho como se ele valesse alguma coisa.
Mas, antes que pudesse responder, uma voz áspera soou do lado de fora.
—Então era verdade!
Valeria empalideceu.
Na entrada apareceu Esteban, seu primo, filho da tia que havia tentado ficar com a pequena herança de seus pais. Vinha com dona Remedios e 2 vizinhos atrás, como se tivesse trazido testemunhas de propósito.
Esteban olhou para Mateo dentro do cômodo de terra e sorriu com veneno.
—Olhem só. A pobrezinha que se faz de santa recebendo homens sozinha na caverna dela.
Valeria sentiu o mundo afundar sob seus pés.
E Mateo entendeu, tarde demais, que sua visita acabara de colocá-la diante de uma vergonha que o povoado inteiro estava esperando para usar contra ela.
PARTE 2
—Saia da minha casa, Esteban —disse Valeria, com a voz quebrada, mas firme.
Seu primo soltou uma gargalhada.
—Sua casa? Não me faça rir. Esse terreno era do seu pai, e minha mãe tem papéis para provar que você nem sabe o que herdou.
Mateo franziu a testa.
—Quem é o senhor?
Esteban o olhou de cima a baixo, reconhecendo-o imediatamente.
—Don Mateo Salcedo. Que honra. Não sabia que agora o senhor visitava moças escondidas.
Dona Remedios levou a mão ao peito como se estivesse vendo um pecado imperdoável.
—Valeria, que vergonha. Uma mulher decente não recebe homens sozinha.
—Vocês entraram sem permissão —respondeu ela.
—Permissão quem pede é você para ficar aqui —cuspiu Esteban—. Minha mãe deixou você viver neste buraco por pena, mas isso acabou. Ou entrega o terreno, ou amanhã mesmo vamos ao juiz de paz.
Valeria apertou as mãos.
—Meu pai deixou este lugar para mim.
—Seu pai não deixou nada claro.
Mateo deu um passo à frente.
—A senhorita já falou. Vá embora.
Esteban sorriu, mas seus olhos endureceram.
—Não se meta, rancheiro. O senhor comprou pão, não problemas de família.
Valeria sentiu uma pontada de humilhação. Aquela era exatamente a razão pela qual não queria que ninguém se aproximasse. Porque sua vida sempre acabava virando espetáculo.
—Mateo —disse ela sem perceber que usou seu nome—, por favor, vá embora também.
Ele a olhou surpreso.
—Não vou deixá-la com eles.
—Isso não é assunto seu.
A frase saiu mais fria do que ela queria. Mas Valeria estava com medo. Medo de que ele a visse como todos: uma mulher pobre, sozinha, fácil de manchar com rumores.
Mateo sustentou seu olhar por 1 segundo. Depois assentiu.
—Voltarei na sexta-feira pelos pães.
Esteban soltou outra risada.
—Claro, pelos pães.
Valeria baixou os olhos, sentindo o sangue arder em seu rosto.
Mateo saiu sem responder, montou em seu cavalo e foi embora. Mas não tomou o caminho do rancho.
Foi direto à venda de seu Chuy.
Naquela noite, enquanto Valeria fechava a porta de madeira e se sentava junto ao forno apagado, acreditou que tudo estava perdido. Se Esteban conseguisse tirar o terreno dela, não perderia apenas sua casa. Perderia o forno. Perderia o único modo de viver sem pedir esmola.
Chorou em silêncio, com as mãos ainda cheirando a massa.
No dia seguinte, o rumor já estava em todo San Miguel del Llano.
Que Valeria recebia homens. Que o rancheiro a encontrou “bem à vontade”. Que era por isso que vivia longe. Que nenhuma moça decente fazia pão de madrugada sozinha numa loma.
Quando chegou à venda com a cesta, 2 mulheres pararam de falar. Seu Chuy pegou os pães sem olhá-la diretamente.
Isso doeu mais que os insultos.
—O senhor também acredita nisso? —perguntou Valeria.
O velho suspirou.
—Eu acredito que o povo fala porque não tem vergonha. Mas também acho que Esteban está atrás de alguma coisa.
—Ele quer meu terreno.
—Não só isso.
Valeria levantou os olhos.
Seu Chuy baixou a voz.
—Ontem, depois que don Mateo veio aqui, Esteban perguntou quanto pão você vendia por mês. Quis saber se alguém te pagava adiantado.
O estômago de Valeria se fechou.
—Para quê?
—Para provar que você tem um negócio. Se conseguir que um juiz diga que o forno e o terreno estão sob administração da família, ele pode meter a mão em tudo.
Valeria sentiu frio.
Seu primo não queria apenas expulsá-la. Queria ficar com o que ela havia construído.
Na sexta-feira, Mateo voltou.
Mas não chegou sozinho.
Trazia uma carroça vazia, 3 sacos de farinha, 2 sacos de açúcar, um saco de sal e seu capataz, seu Eusebio, sentado ao lado dele.
Valeria saiu ao vê-lo e ficou rígida.
—Eu disse 10 pães, não meia venda.
Mateo desceu da carroça.
—Não são presentes.
—Então o que são?
—Pagamento adiantado.
Ela balançou a cabeça.
—Não posso aceitar.
—Pode. São 10 pães esta semana e 20 na próxima. O rancho precisa de pão todos os dias para os trabalhadores.
Valeria o olhou com desconfiança.
—Por pena?
Mateo pareceu ofendido.
—Por qualidade.
A palavra a desarmou um pouco.
Então ele tirou um papel dobrado do bolso.
—E isto eu encontrei com seu Chuy.
Valeria o pegou com as mãos inseguras.
Era uma cópia antiga do registro de propriedade. O terreno do riacho estava no nome de seu pai. E embaixo havia uma anotação: herdeira única, Valeria Herrera.
Seus olhos se encheram de lágrimas.
—De onde o senhor tirou isso?
—Seu Chuy guardava papéis do seu pai. Disse que ele os deixou caso um dia sua família tentasse alguma coisa.
Valeria não conseguiu falar.
Mateo baixou a voz.
—Seu primo está mentindo.
Nesse momento, Esteban apareceu pelo caminho com 2 homens e uma expressão triunfante.
—Que bom que estão juntos —disse, levantando uma pasta—. Assim será mais fácil. Trouxe uma ordem para despejá-la.
Valeria sentiu o papel de propriedade tremer em suas mãos.
Mateo deu um passo à frente.
—Mostre.
Esteban sorriu.
—Claro. Mas antes quero que todo o povoado saiba o que encontrei na casa da falecida tia.
Tirou uma carta amarelada e a ergueu diante de Valeria.
—Seu pai não morreu como você pensa.
PARTE 3
Valeria sentiu o ar fugir.
—O que você disse?
Esteban aproveitou cada segundo de seu silêncio.
—Que seu pai não morreu como te contaram. E sua mãe também não. Há coisas que uma órfã deveria agradecer por a família ter escondido.
Mateo se virou para Valeria.
Ela estava branca, com o papel de propriedade colado ao peito.
Durante 6 anos, havia acreditado que seus pais morreram por causa da febre que atingiu a região. Foi o que lhe disseram. Foi o que todos repetiram. Uma doença rápida. Uma desgraça. Um enterro simples.
Mas o rosto de Esteban tinha maldade demais para ser apenas um rumor.
—Leia a carta —disse ele—. Ou melhor, eu leio, para você não se fazer de digna.
—Não —interveio Mateo—. Se essa carta é dela, entregue a ela.
Esteban soltou uma risada.
—O senhor realmente acha que pode vir com sacos de farinha e brincar de herói.
—Acho que está ameaçando uma mulher dentro da propriedade dela.
—Esta propriedade será minha antes que o mês termine.
Seu Eusebio desceu da carroça, devagar, com o olhar duro de um homem velho que já havia visto injustiças demais.
—Rapaz, se trouxe uma ordem, mostre. Se trouxe fofoca, vá embora.
Esteban apertou a mandíbula.
Em vez de entregar a carta, tirou outro papel.
—Aqui está. Assinado pelo juiz de paz. Despejo por ocupação irregular.
Mateo pegou o documento e leu. Depois olhou o selo.
—Isso não é uma ordem judicial. É uma solicitação.
Esteban ficou vermelho.
—Está em andamento.
—Então você não tem direito de tocar nesta porta.
Valeria respirou pela primeira vez em quase 1 minuto.
Mas Esteban ainda sorria.
—Talvez hoje, não. Mas, quando o povoado souber que seu pai morreu devendo dinheiro, ninguém vai comprar nem um pãozinho seu.
Valeria deu um passo.
—Entregue essa carta.
Esteban a ergueu fora de seu alcance.
—Primeiro assine que renuncia ao terreno. Dou 24 horas. Se não, amanhã leio isto na praça diante de todos.
Mateo se moveu tão rápido que Esteban recuou.
—Você não vai extorqui-la.
—E o senhor vai fazer o quê? Casar com ela para salvá-la?
O silêncio caiu brutal.
Valeria ficou imóvel.
Mateo também.
Esteban viu a ferida se abrir e enfiou o dedo.
—Porque isso seria muito conveniente, não é? O rancheiro rico e a padeira da caverna. O povoado inteiro iria rir.
Valeria levantou o queixo.
—Que riam.
Mateo a olhou.
Não havia lágrimas em seus olhos agora. Havia cansaço, sim, mas também uma força que não pedia permissão.
Esteban cuspiu no chão.
—Amanhã, então.
Foi embora com seus homens, deixando poeira e medo para trás.
Naquela noite, Valeria não dormiu.
Mateo também não voltou ao rancho no começo. Foi ao arquivo municipal com seu Chuy. Depois à casa do velho sacerdote que havia enterrado os pais de Valeria. Mais tarde, quando já era noite, cavalgou até El Encino, onde sua mãe o esperava na sala com cara de tempestade.
—Disseram-me que você anda metido com a moça do riacho —disse dona Catalina, sem cumprimentá-lo.
Mateo deixou o chapéu sobre a mesa.
—Ela se chama Valeria Herrera.
—Ela se chama problema. Uma mulher com rumores não entra nesta família.
—Inventaram os rumores para tirar a casa dela.
—Não seja ingênuo. Uma esposa para você deve vir de uma família respeitável.
Mateo a olhou com tristeza.
—Respeitável como a nossa?
Dona Catalina ficou rígida.
—Cuidado com suas palavras.
—Não, mamãe. Já me cansei de cuidar delas enquanto outros destroem uma mulher sozinha.
—Essa padeira vale mais que seu sobrenome?
Mateo lembrou-se do pão sobre a mesa, do quarto de terra, das mãos cheias de farinha, da forma como Valeria defendia seu lar mesmo com o corpo tremendo.
—Sim —disse—. Se o sobrenome serve para pisar em alguém, ela vale mais.
Dona Catalina lhe deu um tapa no rosto.
Mateo não se moveu.
—Amanhã irei à praça —disse ele—. E vou estar do lado certo.
No dia seguinte, todo San Miguel del Llano se reuniu diante da prefeitura municipal.
Esteban havia conseguido o que queria: público.
Valeria chegou sozinha, vestida com o mesmo vestido simples de sempre, mas com o cabelo bem preso e as mãos limpas. Caminhou entre murmúrios.
Dona Remedios sussurrou:
—Olhe só, ela ainda se atreve.
Valeria ouviu. Desta vez não baixou os olhos.
Mateo apareceu minutos depois com seu Chuy, seu Eusebio e o padre Anselmo, um sacerdote idoso que caminhava apoiado em uma bengala.
Esteban subiu no degrau principal com a carta na mão.
—Vizinhos, hoje vocês vão saber quem realmente era a família Herrera.
Valeria sentiu as pernas querendo falhar, mas Mateo se colocou ao seu lado sem tocá-la. Apenas estar ali bastou.
Esteban abriu a carta.
—Segundo isto, o pai de Valeria devia dinheiro. Muito dinheiro. E deixou a filha sem direito de reivindicar nada.
—Isso é mentira —disse o padre Anselmo.
A praça ficou imóvel.
Esteban se virou.
—Perdão?
O sacerdote levantou uma pasta velha.
—A carta que você tem está incompleta. Eu guardei a outra metade porque o pai de Valeria me entregou 2 dias antes de morrer.
Valeria abriu os olhos.
O padre Anselmo baixou a voz, mas todos conseguiram ouvir.
—Seu pai não morreu de febre, filha. Ele foi espancado.
Um murmúrio percorreu a praça.
Valeria sentiu algo se partir dentro dela.
—Quem?
O sacerdote olhou para Esteban.
—Os homens que trabalhavam para seu tio. Queriam obrigá-lo a assinar a cessão do terreno do riacho, porque sabiam que ali passaria a nova estrada até o rancho grande. Seu pai se recusou. Sua mãe tentou denunciá-los. Os 2 foram silenciados com ameaças, agressões e abandono. Morreram dias depois.
Valeria cobriu a boca com uma mão.
A terra sob seus pés já não era apenas terra. Era o último lugar que seus pais haviam defendido para ela.
Esteban gritou:
—Isso não prova nada!
Seu Chuy avançou com outro papel.
—Isto prova.
Entregou ao presidente municipal o registro original. A assinatura do pai de Valeria. O selo. A herança clara.
Mateo então tirou uma caderneta.
—E isto prova que Esteban tentou cobrar dinheiro pelo pão de Valeria dizendo ser administrador da família. Seu Chuy anotou cada visita, cada ameaça e cada pergunta.
Dona Remedios, que havia carregado fofocas durante anos, deu um passo para trás.
As pessoas começaram a murmurar diferente.
Já não era zombaria.
Era vergonha.
Esteban tentou descer do degrau, mas seu Eusebio bloqueou sua passagem.
—Espere aí, rapaz. Agora você vai ouvir.
O presidente municipal revisou os papéis diante de todos. Não demorou muito.
—Valeria Herrera é a dona legítima do terreno do riacho. Qualquer tentativa de despejo fica sem efeito. E, pelas acusações de extorsão e falsificação, isto será encaminhado ao Ministério Público.
Esteban perdeu a cor.
—Vocês não podem fazer isso comigo.
Valeria o olhou com lágrimas nos olhos.
—Você fez isso comigo durante 6 anos.
Ele não respondeu.
Quando os policiais municipais o escoltaram, a praça ficou em um silêncio incômodo. Ninguém sabia onde colocar o rosto.
Dona Remedios se aproximou devagar.
—Valeria, eu…
—Não —disse ela.
A mulher parou.
Valeria respirou fundo.
—A senhora não precisa dizer nada hoje. Só pare de falar de mim amanhã.
Dona Remedios baixou a cabeça.
Mateo não disse uma palavra até que as pessoas começaram a se dispersar. Então se aproximou de Valeria.
—Sinto muito que tenha descoberto assim.
Ela olhava para a pasta como se pesasse mais que uma pedra.
—Eu pensei que aquele quarto de terra fosse a única coisa que me restava porque ninguém queria me receber.
—Era o que seus pais protegeram para você.
Valeria chorou então. Não com vergonha. Não como nas noites junto ao forno. Chorou de pé, na praça, diante de todos, porque finalmente entendeu que sua solidão não havia nascido do abandono, mas de uma mentira.
Mateo quis abraçá-la, mas não se atreveu.
Ela foi quem deu o passo.
Apoiou a testa em seu peito por um instante. O rancheiro fechou os olhos, como se aquele gesto tivesse mudado algo dentro dele.
Semanas depois, o forno do riacho não deixou de acender. Pelo contrário, Valeria contratou 2 moças que precisavam de trabalho e lhes ensinou a sovar sem pressa. Seu Chuy vendia seus pães com uma placa nova:
Pão Herrera. Feito por mãos que nunca se renderam.
O rancho El Encino recebia cestas todas as manhãs.
Mateo continuava indo às sextas-feiras.
No começo, por pão.
Depois, por conversa.
Mais tarde, por aquela forma tranquila com que Valeria começou a rir quando descobriu que não precisava se defender de tudo.
Dona Catalina demorou a aceitar a verdade. Mas, certa tarde, chegou ao riacho, vestida de preto, com o orgulho dobrado debaixo do braço.
—Não vim pedir pão —disse.
Valeria, que tirava assadeiras do forno, olhou-a com cautela.
—Então veio para quê?
A mãe de Mateo engoliu em seco.
—Para pedir perdão. Porque eu também acreditei que uma mulher valia pela casa onde a encontravam, não pelo que era capaz de construir com as próprias mãos.
Valeria não respondeu de imediato.
Depois lhe ofereceu uma cadeira.
Não foi um perdão completo.
Mas foi um começo.
Um ano depois, o povoado inteiro voltou a se reunir diante da igreja. Desta vez, não para julgá-la.
Mas para vê-la entrar.
Valeria caminhou com um vestido marfim simples, o cabelo preso e um pequeno buquê de flores silvestres. Não parecia a moça escondida numa loma. Também não parecia uma mulher resgatada.
Parecia o que sempre havia sido: alguém que sobreviveu sem se tornar amarga.
Mateo a esperava à frente.
Quando ela chegou ao seu lado, ele murmurou:
—A primeira vez que provei seu pão, pensei que ele tinha gosto de lar.
Valeria sorriu com os olhos brilhantes.
—E eu pensei que nenhum homem decente procuraria esposa em um quarto enterrado na terra.
Mateo apertou sua mão.
—Ainda bem que você se enganou.
Ela olhou para a porta da igreja, de onde se via ao longe o caminho do riacho, a loma e a fumaça suave do forno.
—Não —disse baixinho—. Eu me enganei em outra coisa.
—Em quê?
Valeria olhou para ele.
—Pensei que aquele lugar fosse meu fim. Mas era apenas minha raiz.
Às vezes, as pessoas olham para uma casa humilde e acham que ali vive a pobreza. Mas existem lugares pequenos onde se assa dignidade, onde uma mulher sozinha aprende a não se quebrar, onde a terra guarda segredos até chegar o dia de trazê-los à luz.
E, em San Miguel del Llano, desde então, ninguém voltou a dizer “a moça da caverna”.
Chamaram-na pelo nome.
Valeria Herrera.
A mulher que transformou farinha, fogo e dor no pão que lhe devolveu sua história.
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