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“Só lhe peço abrigo para minha filha… eu durmo debaixo da chuva”, suplicou o viúvo à dona da fazenda.

PARTE 1

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—Não estou pedindo uma cama para mim, senhora… só um teto para minha filha. Eu posso dormir lá fora, perto do curral.

A frase caiu na entrada como um balde de água gelada.

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Dona Rosario Beltrán apertou com mais força a bengala com uma mão e, com a outra, segurou a porta apenas entreaberta. A chuva castigava o pátio de terra de seu rancho nos arredores de Tapalpa, Jalisco, e o vento empurrava folhas secas contra os muros brancos da casa.

À sua frente estava um homem de uns 60 anos, encharcado até os ossos, com o chapéu desfeito pela água e uma mochila velha pendurada no ombro. Ao lado dele, uma moça jovem, morena, magra, talvez de 25 anos, tentava sorrir, embora seus lábios tremessem de frio.

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—Quem são vocês? —perguntou Rosario, sem abrir mais a porta.

—Meu nome é Tomás Ríos —respondeu o homem—. Ela é minha filha, Mariana. Estávamos indo para Sayula. Prometeram-me trabalho em um rancho leiteiro, mas o ônibus nos deixou na estrada e a tempestade nos pegou no meio do caminho.

Mariana baixou os olhos.

—Não queremos incomodar. Só esperamos a chuva diminuir um pouco.

Rosario olhou para a estrada escura. Ninguém caminhava por ali à noite se não estivesse desesperado… ou se não trouxesse más intenções. E ela já havia aprendido, à custa de mordidas na alma, que a pena era uma porta por onde, às vezes, a desgraça entrava.

Fazia 12 anos que vivia sozinha naquele rancho. Desde que seu marido morreu e seu próprio cunhado tentou tomar suas terras falsificando papéis, Rosario deixou de confiar até nas sombras. Ela ganhou a disputa, sim, mas perdeu família, amigos e qualquer vontade de voltar a sentar alguém à sua mesa.

—No povoado há uma pousada —disse, seca.

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Tomás engoliu em seco.

—Não temos dinheiro para pagar. E minha filha passou o dia inteiro sem comer.

Mariana o olhou com vergonha.

—Pai…

—É a verdade —murmurou ele.

Um relâmpago iluminou o pátio. Rosario conseguiu ver os sapatos rasgados da moça, a mão de Tomás apertando a cintura como se as costas doessem, e a maneira como Mariana se colocava diante do pai para protegê-lo do vento.

Algo se mexeu dentro dela. Não ternura. Ainda não. Era mais como uma lembrança enterrada, teimosa como raiz velha.

—Só por esta noite —disse enfim—. Entrem, comam alguma coisa e, ao amanhecer, vão embora. Aqui não se toca em nada sem permissão.

Tomás inclinou a cabeça.

—Que Deus lhe pague.

—Não meta Deus em dívidas alheias. Entre.

A cozinha cheirava a café de panela, lenha e tortilhas recém-aquecidas. Rosario tirou 2 pratos, depois parou. Olhou para o armário. Hesitou. Finalmente tirou um terceiro, como se fazer aquilo fosse uma traição à sua própria solidão.

Serviu-lhes feijão, queijo fresco e pão doce que havia comprado no mercado de Tapalpa. Mariana comeu devagar, tentando não parecer faminta. Tomás partiu seu pão em 2 e colocou metade para a filha sem que ela pedisse.

Rosario fingiu não ver.

—E a mãe da moça? —perguntou.

O silêncio mudou de peso.

—Morreu há 3 anos —respondeu Tomás—. Desde então, andamos procurando um lugar para recomeçar.

Mariana apertou a xícara entre as mãos.

—Meu pai entende de animais, de cercas, de plantio… de tudo. Só precisa de uma oportunidade.

—Oportunidades não são dadas de graça —respondeu Rosario.

—Não pedimos presente —disse Tomás—. Pedimos uma noite sem chuva.

Rosario não respondeu.

Deu-lhes alguns cobertores e os mandou para o quartinho ao lado do depósito. Depois trancou seu quarto com chave, como fazia todas as noites. Mas daquela vez não dormiu. Ficou escutando cada rangido, cada movimento, cada pancada do vento.

Antes do amanhecer, saiu com cuidado. Esperava encontrar alguma coisa fora do lugar. Uma gaveta aberta. Dinheiro faltando. A porta arrombada.

Mas a cozinha estava limpa.

As xícaras lavadas.

A lenha arrumada.

E Tomás estava no pátio, consertando uma tábua solta do galinheiro sob uma garoa fina.

—O que o senhor está fazendo? —perguntou Rosario da porta.

Tomás se endireitou com dor.

—A tempestade soltou a tábua. As galinhas poderiam fugir.

—Eu não lhe pedi trabalho.

—Eu sei.

—Então por que está fazendo isso?

O homem a olhou com uma dignidade triste.

—Porque receber ajuda sem devolver nada também pesa.

Rosario não soube o que responder.

Mariana apareceu atrás dele com o cabelo preso e uma vassoura na mão.

—Também varri a cozinha. Espero que não se incomode.

Rosario sentiu uma fisgada estranha. Aquela casa fazia anos que não ouvia outra voz pela manhã.

A chuva continuou caindo. A estrada virou lama. Eles não podiam ir embora.

—Mais 1 dia —disse Rosario—. Mas não se acostumem.

No entanto, naquela tarde, Tomás consertou a cerca do pasto. Mariana ajudou a fazer geleia de goiaba. E, pela primeira vez em anos, Rosario não jantou diante de uma cadeira vazia.

No terceiro dia, um vizinho chegou ao portão montado em seu cavalo. Era Dom Evaristo Medina, dono do rancho vizinho e língua oficial de todos os mexericos do povoado.

Olhou para Tomás. Depois para Mariana. Em seguida, sorriu com veneno.

—Veja só, Rosario. A gente se descuida um pouquinho e você já arruma uma família nova.

Rosario endureceu a mandíbula.

—Tenho visitas.

—É o que todas dizem no começo.

Tomás baixou os olhos. Mariana ficou pálida.

—Meça suas palavras, Evaristo —advertiu Rosario.

Ele soltou uma risadinha.

—Só tome cuidado. Depois, os que chegam pedindo teto acabam ficando com a casa.

Naquela noite, Rosario jantou em silêncio. As palavras de Evaristo tinham entrado como escorpiões por baixo da porta.

Mas o pior veio depois.

Quando todos achavam que ela dormia, Rosario ouviu Tomás falando baixo com Mariana.

—Amanhã nós vamos embora, filha.

—Mas não temos para onde ir.

—Não quero que, por nossa culpa, essa senhora perca a tranquilidade dela.

Mariana começou a chorar.

—Pai, o senhor já nem consegue caminhar direito.

Rosario ficou imóvel no corredor, com a mão na parede.

Então Tomás disse algo que a deixou gelada.

—Prefiro morrer na estrada a ver você ser humilhada de novo.

E Rosario entendeu que aquela porta que havia aberto por 1 noite acabara de abrir para ela um problema muito maior.

PARTE 2

Na manhã seguinte, Rosario encontrou Tomás com a mochila pronta.

—Vão embora assim, sem mais nem menos? —perguntou, fingindo dureza.

—A senhora foi boa conosco —respondeu ele—. Não queremos lhe causar mais problemas.

Mariana usava a mesma jaqueta úmida da primeira noite. Seus olhos estavam inchados, mas ela não disse nada.

Rosario olhou para o céu cinzento. A estrada continuava pesada, cheia de poças e pedras soltas. Tomás mal conseguia se manter de pé.

—Para onde pensam ir?

—Para Sayula. Um conhecido me disse que precisam de um encarregado em um rancho.

—E se não for verdade?

Tomás ficou em silêncio.

Rosario soltou o ar pelo nariz.

—Comam antes de ir. Ninguém sai da minha casa de estômago vazio.

Durante o café da manhã, Mariana quase não tocou nos ovos com molho. Rosario a observou de canto de olho.

—Não gostou?

—Gostei, senhora. Está muito bom.

—Então coma.

A moça obedeceu, mas, no meio do prato, precisou cobrir a boca para tossir. Tomás se alarmou.

—De novo essa tosse.

—Estou bem.

—Você sempre diz a mesma coisa.

Rosario notou a preocupação verdadeira no rosto do homem. Não era teatro. Não era truque. Era aquele medo silencioso de quem já havia perdido demais.

Quando terminaram, Tomás colocou o chapéu.

—Obrigado por tudo, dona Rosario.

Mariana se aproximou com timidez.

—Nunca vou esquecer que a senhora nos deixou entrar.

Rosario cruzou os braços.

—Não faça promessas grandes por favores pequenos.

A moça sorriu com tristeza.

—Para nós, não foi pequeno.

Ela os viu se afastarem pela estrada de terra. Primeiro devagar. Depois menores entre a neblina. A casa voltou a ficar quieta.

Quieta demais.

Naquele mesmo dia, Rosario desceu ao mercado com seus queijos e potes de geleia. As clientes notaram imediatamente que ela estava sozinha.

—E a moça que ajudava a senhora? —perguntou uma mulher.

—Seguiu o caminho dela.

—Que pena. Vendia tão bonito. Tinha jeito.

Rosario arrumou os potes sem responder. Mas, quando voltou ao rancho, a cozinha lhe pareceu enorme. Havia 3 xícaras secando ao lado da pia. Guardou 2 e deixou 1 de fora.

Não soube por quê.

Passaram-se 10 dias.

Dom Evaristo voltou a aparecer no portão com seu sorriso de faca.

—Seus protegidos já foram embora?

—Eles não eram meus protegidos.

—Melhor. Porque perguntei no povoado e ninguém conhece esse Tomás Ríos. Talvez nem se chame assim.

Rosario sentiu um golpe no peito, embora não demonstrasse.

—O senhor tem muito tempo livre.

—E você tem memória fraca demais. Uma vez, por confiar, quase perdeu o rancho.

Rosario fechou o portão sem se despedir.

Mas naquela noite não conseguiu dormir. Tirou da gaveta uma pasta velha com os papéis do processo contra seu cunhado. Lembrou-se de assinaturas falsas, ameaças, advogados caros, parentes que deixaram de olhá-la nos olhos. O medo voltou, velho, mas ainda com dentes.

Na tarde seguinte, enquanto alimentava as galinhas, ouviu batidas na porta.

Não eram fortes. Eram cansadas.

Rosario abriu.

Tomás e Mariana estavam ali.

Mas, desta vez, não traziam a esperança da primeira noite. Traziam poeira nas roupas, fome no rosto e uma derrota tão clara que não precisava ser explicada.

—Perdão —disse Tomás—. Não deveríamos ter voltado.

Mariana estava com os lábios secos. Segurava-se no braço do pai, mas era evidente que ele também mal conseguia se manter de pé.

—O trabalho não existia —continuou ele—. O dono vendeu o rancho há meses. Caminhamos até mais 2 povoados. Em um, não contrataram ninguém. Em outro, ofereceram-nos dormir em um depósito se Mariana trabalhasse de graça.

Rosario olhou para a moça.

—De graça?

Mariana baixou a cabeça.

—Disseram que, por ser mulher, eu não valia o mesmo.

Algo se acendeu nos olhos de Rosario.

—E o senhor fez o quê?

Tomás apertou os punhos.

—Tirei minha filha de lá.

—Papai discutiu com o capataz —sussurrou Mariana—. Por isso nos expulsaram.

O vento mexeu nas telhas do telhado. Rosario ficou em silêncio.

Então Evaristo apareceu, como se tivesse farejado o escândalo desde seu rancho.

—Eles de novo? —disse da estrada—. Rosario, não seja tonta.

Tomás deu um passo para trás.

—Nós vamos embora.

Mas Mariana se dobrou de repente, tossindo com força. Rosario a segurou antes que caísse.

—Entre —ordenou.

—Não queremos problemas —disse Tomás.

Rosario levantou os olhos para Evaristo.

—O problema está lá fora.

Evaristo se aproximou.

—Depois não chore quando roubarem você.

Rosario abriu mais a porta e falou com uma calma que assustava.

—Amanhã mesmo vou ao povoado perguntar quem anda oferecendo depósitos a moças sem pagar.

O sorriso de Evaristo desapareceu.

—Não se meta em coisas que não entende.

Rosario o encarou.

—Foi o que também me disseram quando tentaram roubar minha terra.

Tomás ficou congelado.

Mariana levantou os olhos, surpresa.

E então Evaristo cometeu o erro de falar demais.

—Daquela vez você teve sorte, Rosario. Desta vez não haverá juiz para salvá-la se você enfiar estranhos dentro da sua casa.

Rosario sentiu o sangue gelar.

Porque aquele detalhe sobre o juiz… ela nunca havia contado a ninguém fora do processo.

E, enquanto Evaristo recuava, Rosario compreendeu que o perigo não havia chegado com os forasteiros.

O perigo vivia ao lado havia anos.

PARTE 3

Rosario fechou a porta com Tomás e Mariana lá dentro, mas seus olhos continuaram fixos na estrada por onde Evaristo havia ido embora.

Não disse nada por vários minutos.

Apenas colocou água para esquentar, procurou um xarope de ervas para a tosse de Mariana e ordenou que ela se sentasse perto do fogão.

—Respire devagar.

—Estou bem, dona Rosario.

—Mentiras bonitas não curam tosse.

Mariana obedeceu.

Tomás continuava de pé, envergonhado, com a mochila nas mãos.

—Iremos embora assim que amanhecer.

Rosario virou-se para ele.

—Se disser isso de novo, eu jogo a panela no senhor.

O homem piscou, sem saber se tinha ouvido direito.

—Perdão?

—Estou dizendo para se sentar. O senhor também não está em condições de bancar o forte.

Tomás sentou-se devagar. A dor nas costas lhe arrancou uma expressão que ele já não conseguiu esconder.

Rosario serviu 3 xícaras de café. Ao colocá-las sobre a mesa, ficou olhando para elas. Durante anos, havia usado apenas 1. As outras eram peças de museu, testemunhas mudas de uma vida que havia se fechado por dentro.

—Evaristo sabe coisas que não deveria saber —disse enfim.

Tomás franziu a testa.

—Sobre a senhora?

—Sobre o processo que ganhei há 12 anos.

Mariana a olhou com atenção.

Rosario sentou-se diante deles. Não gostava de contar sua história. Sentia que cada palavra abria uma costura antiga. Mas, naquela noite, entendeu que o silêncio, quando se prolonga demais, também se torna cúmplice.

—Meu marido, Julián, morreu sem filhos. Este rancho ficou em meu nome. O irmão dele, Rogelio, falsificou documentos para ficar com tudo. Disse que eu não sabia trabalhar a terra, que uma mulher sozinha não podia manter nada. Muitos acreditaram nele.

Tomás apertou os lábios.

—Isso acontece mais do que deveria.

—Ameaçaram-me. Pararam de me vender ração para os animais. Romperam minhas cercas. Esconderam minhas ferramentas. Mas fui à Justiça e ganhei.

—E Evaristo?

Rosario olhou para a janela.

—Evaristo declarou a meu favor. Pelo menos foi isso que acreditei durante anos. Disse que tinha visto Rogelio entrar no rancho à noite. Graças a isso, o juiz acreditou em mim.

Mariana entendeu antes de Tomás.

—Mas, se ele sabia detalhes sobre o juiz…

—Significa que esteve mais perto do assunto do que sempre admitiu —disse Rosario.

O silêncio caiu pesado sobre a mesa.

Na manhã seguinte, Rosario não foi ao mercado. Foi direto à prefeitura de Tapalpa. Tomás insistiu em acompanhá-la, mas ela ordenou que ficasse cuidando de Mariana e do rancho.

—Não preciso de guarda-costas.

—Eu não dizia isso pela senhora.

—Então cuide da minha gente.

A frase saiu sozinha.

Tomás baixou os olhos. Mariana ouviu da cozinha e ficou imóvel, com uma mão sobre a xícara.

Minha gente.

Rosario caminhou pelo povoado com o xale bem ajustado. Alguns vizinhos a cumprimentaram. Outros cochicharam. Ela não parou até chegar à licenciada Paulina Aguirre, uma advogada jovem que atendia assuntos agrários 2 vezes por semana.

—Preciso revisar o processo do meu julgamento —disse Rosario.

Paulina levantou os olhos.

—O da propriedade Beltrán?

—Esse.

—Aconteceu alguma coisa?

Rosario hesitou.

—Talvez tenha acontecido há anos e eu só esteja percebendo agora.

Revisaram cópias, testemunhos, carimbos. Tudo parecia em ordem, até que Paulina encontrou uma folha anexada, quase esquecida, com a assinatura de Evaristo como testemunha de um suposto acordo privado entre Rogelio e Rosario.

Rosario empalideceu.

—Eu nunca assinei isso.

Paulina aproximou o papel.

—Este documento não foi usado para tirar o rancho da senhora porque apareceu depois da sentença. Mas, se alguém quisesse reabrir o conflito, poderia tentar usá-lo para pressioná-la.

—Quem o apresentou?

Paulina conferiu a parte inferior.

—Evaristo Medina.

Rosario sentiu o chão se mover.

Durante anos, Evaristo não tinha sido apenas um vizinho inconveniente. Tinha sido uma víbora adormecida sob a pedra.

Quando voltou ao rancho, encontrou Tomás consertando o bebedouro das vacas com movimentos lentos, mas precisos. Mariana estava na cozinha preparando tortilhas de farinha, ainda pálida, porém mais tranquila.

—Precisamos conversar —disse Rosario.

Contou tudo a eles.

Tomás ouviu sem interromper. Quando ela terminou, tirou o chapéu e o deixou sobre a mesa.

—Esse homem não quer apenas assustá-la. Quer que a senhora fique sozinha.

Rosario o olhou.

—Por quê?

—Porque uma pessoa sozinha assina mais fácil, vende mais barato e se defende pior.

Mariana acrescentou em voz baixa:

—E porque agora a senhora tem testemunhas.

Rosario sentiu um arrepio.

Naquela tarde, Evaristo chegou com 2 homens desconhecidos. Trazia uma pasta debaixo do braço e uma segurança falsa, dessas que os covardes usam quando acreditam que já venceram.

—Rosario —chamou do portão—. Precisamos conversar como adultos.

Tomás quis sair, mas Rosario o deteve.

—Esta é a minha porta.

Caminhou até o portão com a bengala na mão. Mariana e Tomás ficaram atrás, a poucos passos.

—O que o senhor quer?

Evaristo sorriu.

—Evitar problemas para você. Fiquei sabendo que andou revisando papéis. Para quê essa necessidade? Na sua idade, deveria descansar.

—Na minha idade, já aprendi a não receber conselhos de ladrões.

Um dos homens soltou uma risada nervosa.

Evaristo endureceu o rosto.

—Cuidado.

—Não. Cuidado o senhor.

Rosario abriu o portão, mas não para deixá-lo entrar. Abriu para que ele a visse inteira, firme, sem se esconder.

—Eu sei do documento falso.

Evaristo tentou fingir surpresa.

—Você não sabe o que está dizendo.

—Sei que foi o senhor quem o apresentou. Sei que minha assinatura não é minha. E sei que o senhor passou anos esperando que eu ficasse sozinha o bastante para vir me oferecer uma saída miserável.

O sorriso de Evaristo desapareceu por completo.

—Esse rancho é grande demais para você.

—Talvez. Mas não serve para o senhor.

Ele olhou por cima do ombro dela para Tomás e Mariana.

—E esses aí? Agora eles vão defender você? São mendigos.

Tomás deu um passo, mas Mariana segurou sua mão.

Rosario levantou a bengala.

—Não volte a chamar de mendigo alguém que trabalha mais limpo que o senhor.

Evaristo cuspiu no chão.

—Você vai se arrepender.

Então uma voz soou atrás dele.

—Quem vai se arrepender é o senhor, Dom Evaristo.

Era a licenciada Paulina, acompanhada por 2 policiais municipais e pelo padre Anselmo, que havia servido como testemunha de identidade de Rosario para formalizar a denúncia.

Evaristo ficou branco.

—Isto é um abuso.

Paulina mostrou uma pasta.

—Temos cópia do documento supostamente falsificado e uma denúncia por ameaças. Além disso, dona Rosario não foi a única afetada. Já há 2 famílias que reconheceram a sua forma de agir.

Os homens que acompanhavam Evaristo se afastaram imediatamente.

Rosario não gritou. Não chorou. Não comemorou. Apenas olhou para o vizinho que, durante anos, havia alimentado seu medo pelas sombras.

—O senhor me fez acreditar que desconfiar de todos era inteligência —disse—. Mas só queria que eu não tivesse ninguém quando viesse atrás do que é meu.

Evaristo não respondeu.

Os policiais pediram que ele os acompanhasse. Ele tentou protestar, mas sua voz já não tinha fio. Parecia um cachorro velho sem dentes, ainda barulhento, mas sem mordida.

Quando o levaram, o rancho ficou em silêncio.

Um silêncio diferente.

Não vazio. Limpo.

Mariana começou a chorar sem fazer barulho. Tomás tirou o chapéu e olhou para o céu nublado.

—Perdão, dona Rosario.

—Por quê?

—Por trazer problemas à sua porta.

Rosario o observou demoradamente.

—Vocês não trouxeram problemas. Trouxeram luz. Os problemas já estavam aqui, escondidos.

Mariana cobriu o rosto.

—Ninguém nunca nos defendeu assim.

Rosario sentiu algo se quebrar por dentro, mas não de dor. Era outra coisa. Um muro caindo depois de resistir a invernos demais.

—Pois vão se acostumando —disse—. Nesta casa, gente boa não fica sozinha.

Os dias seguintes mudaram o rancho.

Tomás começou a trabalhar como encarregado formal, com pagamento justo e descanso quando as costas não respondiam. No começo, tentou recusar.

—Não posso aceitar salário.

Rosario o olhou por cima dos óculos.

—Então não aceita trabalho. Aqui não tenho escravos nem mártires.

Mariana ajudou a vender queijos, doce de leite e geleias no mercado. Sua tosse melhorou com consulta médica, comida decente e noites sob um teto. As pessoas do povoado começaram a vê-la não como uma forasteira, mas como a moça que sorria bonito e dava o troco certo.

Em dezembro, a casa já não parecia a mesma.

Havia vasos novos no corredor, luzinhas ao redor do presépio e cheiro de ponche de tejocote. Rosario tirou pratos que fazia anos que não usava. Tomás consertou o velho banco do pátio. Mariana pendurou papel picado na cozinha e colocou um ramo de pinheiro junto à janela.

Na noite de Natal, jantaram caldo, tamales e pão doce. Lá fora fazia frio, mas dentro o fogão ardia com uma calma morna.

Rosario olhou para a mesa.

3 pratos.

3 xícaras.

3 sombras se movendo na parede.

Depois se levantou e foi até seu quarto. Voltou com uma fotografia antiga de Julián, seu marido. Colocou-a no meio da mesa.

—Ele teria brigado com Tomás por não descansar —disse.

Mariana sorriu entre lágrimas.

Tomás olhou a foto com respeito.

—Parece ter sido um bom homem.

—Foi.

Rosario tocou a moldura.

—Durante anos, pensei que manter esta casa fechada era a única forma de honrar o que perdi. Mas agora acho que uma casa fechada não protege lembranças. Ela as aprisiona.

Mariana segurou sua mão.

—Obrigada por nos deixar ficar.

Rosario apertou seus dedos.

—Obrigada por terem voltado.

Tomás tirou do bolso a chave do quartinho, a mesma que Rosario lhe entregara dias antes.

—Ainda não sei se merecemos isso.

Rosario o olhou com uma ternura séria, dessas que não precisam de açúcar.

—A família nem sempre chega com certidão de nascimento. Às vezes chega molhada, com uma mochila rasgada, pedindo abrigo para uma filha.

Tomás baixou a cabeça.

Mariana chorou sem se esconder.

Lá fora, fogos distantes soaram vindos do povoado. Na cozinha, o café de panela soltava vapor. Rosario olhou para as cadeiras ocupadas e entendeu algo que jamais teria aceitado meses antes: a solidão não a havia mantido viva; apenas a havia mantido protegida de sentir.

E viver era outra coisa.

Desde aquele Natal, em Tapalpa começaram a dizer que o rancho de Dona Rosario já não era o rancho da viúva amarga. Diziam que ali sempre havia uma xícara extra para quem chegasse com respeito, fome e verdade.

Alguns murmuravam que Tomás e Mariana tinham tido sorte.

Rosario, por outro lado, sabia a verdade.

A sorte havia batido à sua porta numa noite de tempestade, com os sapatos cheios de lama e uma frase que lhe partiu o coração:

—Só lhe peço abrigo para minha filha… eu dormirei lá fora.

E ainda bem que naquela noite, mesmo com medo, ela abriu a porta.

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