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“Só peço abrigo para minhas filhas… eu durmo no curral”, suplicou o viúvo à fazendeira; dias depois, o vizinho que tentou expulsá-los teve seu segredo enterrado na lama.

PARTE 1
—Só peço abrigo para minhas meninas até a chuva passar. Eu durmo no curral, se for preciso —disse o viúvo, parado na lama, com 2 crianças encharcadas agarradas no lombo de um burro.
Dona Cícera Moura não respondeu de imediato.
Da varanda estreita do seu sítio, no alto frio da Serra da Canastra, ela encarou aquele homem como quem encara uma ameaça. Tinha 63 anos, mãos grossas de roça, costas retas de mulher que aprendeu a se defender antes de aprender a descansar. Morava sozinha havia 15 anos, desde que um homem chamado Agenor levou sua confiança, suas economias e a pouca vontade que ela ainda tinha de esperar alguém voltar.
A chuva caía torta, empurrada pelo vento. O burro cinzento tremia, com as orelhas baixas. Em cima dele, a menina maior segurava a menor com os dois braços, cobrindo-lhe a cabeça com o próprio corpo, embora isso não impedisse a água de escorrer pelas duas. A maior devia ter 8 anos. A menor, 5. A pequena escondia o rosto no ombro da irmã.
—Como é seu nome? —perguntou Cícera, seca.
—Jonas Ferreira.
—E elas?
—A maior é Lídia. A pequena é Mariana.
A menina maior levantou os olhos. Não chorava. Era isso que incomodou Cícera. Criança daquela idade devia chorar, pedir colo, chamar pela mãe. Mas aquela menina olhava como gente crescida, como quem já tinha aprendido que chorar nem sempre salva ninguém.
—A mãe delas?
Jonas baixou a cabeça por meio segundo.
—Morreu faz 3 anos. Desde então somos só nós.
Cícera apertou os lábios.
O juízo mandava fechar a porta. No interior, gente desconhecida chegando de noite podia trazer problema, roubo, mentira, desgraça. E Cícera já tinha sido enganada o bastante para não precisar de nova lição.
Mas a pequena tremia tanto que seus dentinhos batiam.
—As meninas entram —disse ela.
Jonas ergueu os olhos, sem coragem de agradecer direito.
—A senhora não vai se arrepender.
—Não prometa coisa que não sabe cumprir. Você entra também, mas escute bem: nesta casa, quem manda sou eu. Não se mexe em nada sem eu permitir. Não se pergunta o que não deve. E amanhã cedo, se a estrada abrir, vocês seguem caminho.
—Entendido.
Cícera virou-se e entrou. Acendeu mais forte o fogão a lenha, pôs água para esquentar e tirou do baú 2 toalhas antigas, limpas, que cheiravam a sabão de cinza. Quando as meninas cruzaram a porta, a casa pareceu menor. Ou talvez mais viva.
A pequena se encolheu no banco da cozinha. Lídia ficou ao lado dela, atenta a cada gesto de Cícera.
—Tem fome? —perguntou a velha.
Lídia olhou para o pai antes de responder.
—Comemos de manhã.
Aquilo não era resposta. Era confissão.
Cícera pegou feijão do almoço, farinha, queijo curado e esquentou tudo numa panela de ferro. Jonas tentou ajudar.
—Sente —ordenou ela.
Ele obedeceu.
Enquanto as meninas comiam, Cícera fingia não olhar. Mariana segurava o pedaço de queijo com as duas mãos, como se alguém pudesse tomar. Lídia mastigava devagar, sempre vigiando a irmã.
—Para onde iam? —perguntou Cícera.
—Para Sacramento. Um homem disse que tinha serviço numa fazenda.
—E saíram de onde?
—Do outro lado de Delfinópolis.
Cícera parou de mexer a panela.
—A pé?
—A pé.
O silêncio que veio depois foi mais pesado que a chuva.
Ela arrumou o quarto dos fundos. Uma cama estreita, um colchão no chão, cobertor de lã. Jonas ainda tentou dizer que dormiria fora.
—Não quero homem doente gemendo no meu terreiro amanhã cedo —cortou ela.
Na madrugada, Cícera acordou com um sussurro. Mariana chamava a mãe no sono.
Jonas levantou devagar, sentou-se perto dela e disse baixinho:
—Pai está aqui, minha filha. Ninguém vai te largar.
Cícera ficou imóvel no escuro.
Na manhã seguinte, quando o sol apareceu fraco entre nuvens, Jonas já estava no curral, ordenhando as vacas sem que ninguém mandasse. Lídia fazia broas pequenas com uma seriedade triste demais para sua idade. Mariana seguia uma gata rajada pelo terreiro e ria pela primeira vez.
Cícera observava tudo pela janela quando ouviu um cavalo na porteira.
Era Bento Valadares, vizinho antigo, homem de sorriso falso e olho curioso. Ele olhou para Jonas, para as meninas, depois para Cícera.
—Então é verdade que agora tem homem dormindo na sua casa?
Cícera sentiu o sangue ferver, mas antes que respondesse, Bento sorriu mais largo.
—Cuidado, Cícera. Mulher sozinha que abre porta demais acaba perdendo o nome diante do povo.
E o pior foi ver Lídia, parada atrás da porta, ouvindo cada palavra.

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PARTE 2
—O nome que o povo me deu nunca pagou uma conta minha —respondeu Cícera, descendo um degrau da varanda.
Bento fingiu rir.
—Não se ofenda. Vim só avisar. Na venda do Seu Dário já estão comentando. Dizem que o viúvo chegou molhado, mas talvez tenha achado cama quente.
Jonas largou o balde no chão.
—O senhor respeite minhas filhas.
—Eu respeito criança. Só não sou bobo com adulto.
Cícera levantou a mão, impedindo Jonas de avançar.
—Vá embora, Bento.
—Vou. Mas depois não diga que ninguém avisou.
Ele montou no cavalo e saiu devagar, satisfeito por ter plantado veneno.
Naquela tarde, Jonas preparou as coisas para partir. Disse que não queria manchar a vida dela. Cícera odiou ouvir aquilo, porque parte dela sabia que era sensato. A outra parte pensava em Mariana chamando a mãe no sono, em Lídia amassando broa como mulher feita, no curral consertado, na casa respirando de outro jeito.
—A estrada ainda está ruim —disse ela.
—Dona Cícera…
—A pequena está tossindo. Criança com tosse não pega serra. Ficam mais 2 dias.
Os 2 dias viraram 5. Depois uma semana.
Jonas trabalhava sem alarde. Consertou a cerca do pasto, limpou a bica, trocou telhas quebradas. Não pedia nada. Lídia passou a acordar cedo para ajudar Cícera na cozinha. Mariana batizou a gata de Pipoca e dizia que ela era sua amiga.
Numa noite fria, depois que as meninas dormiram, Jonas contou sobre a esposa, Rosa, morta no parto de Mariana. Cícera contou pouco sobre Agenor, o homem que prometeu casamento e sumiu com seu dinheiro.
—Aprendi que esperar dói mais que ficar sozinha —disse ela.
Jonas respondeu baixo:
—Eu também aprendi a perder. Só não aprendi a parar de cuidar.
A frase ficou na cozinha como brasa escondida.
No dia seguinte, Cícera foi à vila comprar sal e querosene. Ao entrar na venda, 3 mulheres calaram a boca ao mesmo tempo. No balcão, havia um papel dobrado. Seu Dário tentou escondê-lo, mas Cícera foi mais rápida.
Era uma denúncia escrita à paróquia e ao conselho rural, dizendo que ela abrigava um homem “sem moral” e duas crianças “sem procedência”.
No fim da folha, havia uma frase que gelou Cícera:
“Antes que essa velha entregue o sítio a um aventureiro, alguém precisa impedir.”
E a assinatura era de Bento Valadares.

PARTE 3
Cícera voltou para casa com o papel amassado na mão e uma raiva tão antiga dentro do peito que parecia ter raízes.
Jonas estava no terreiro, ajeitando a sela do burro. Ao vê-la, entendeu antes que ela falasse.
—Aconteceu alguma coisa.
Ela jogou o papel sobre a mesa da cozinha.
Lídia, que lavava uma caneca, ficou parada. Mariana abraçou a gata Pipoca contra o peito.
Jonas leu devagar. Seu rosto endureceu não por vergonha, mas por cansaço. Cansaço de quem já conhecia aquele tipo de mundo.
—Nós vamos embora hoje —disse ele.
—Não vai, não.
—Dona Cícera, por causa de nós estão atacando a senhora.
—Não é por causa de vocês. É por causa da maldade deles.
—Mas minhas filhas não precisam ouvir isso.
Cícera olhou para Lídia. A menina fingia não entender, mas entendia tudo. Crianças pobres aprendem rápido demais o idioma da humilhação.
—Lídia, leve sua irmã para o quarto.
—Eu posso ficar.
—Eu sei que pode. Mas não precisa.
A menina obedeceu, puxando Mariana pela mão.
Quando ficaram a sós, Jonas respirou fundo.
—Bento me conhece.
Cícera levantou os olhos.
—Como assim?
—Antes de Rosa morrer, trabalhei 4 meses numa fazenda perto daqui. Bento aparecia lá comprando gado. Um dia me ofereceu dinheiro para assinar um recibo falso, dizendo que uma leva de bezerros tinha morrido na estrada. Era mentira. Ele queria enganar o dono.
—E você não assinou.
—Não.
—Então é isso.
Jonas assentiu.
—Ele me disse que homem pobre que se mete a honrado passa fome. Eu fui embora. Depois Rosa adoeceu, a vida apertou, e nunca mais pensei nele.
Cícera apertou o papel com força.
A verdade não era só fofoca. Era vingança. Bento não estava preocupado com a honra dela. Estava com medo de Jonas ficar por perto, ser reconhecido e lembrar o que sabia.
Na manhã seguinte, Bento voltou. Dessa vez trouxe 2 homens da vila e dona Alzira, beata que se achava dona da moral alheia. Vieram como se fossem juízes.
Cícera esperou na varanda, vestida com sua saia escura de domingo e o xale de lã nos ombros. Jonas ficou atrás dela, com as meninas perto da porta.
—Viemos conversar pelo bem da comunidade —disse dona Alzira.
—Comunidade nenhuma lava minha roupa, paga meu imposto ou ordenha minha vaca —respondeu Cícera.
Bento sorriu.
—Cícera, ninguém quer confusão. Só queremos que esse homem siga caminho antes que sua reputação vire motivo de riso.
Ela desceu um degrau.
—Minha reputação sobreviveu a seca, enchente, dívida, abandono e língua podre. Não vai ser você que vai enterrá-la.
Um dos homens pigarreou.
—Mas a senhora entende que pegar estranho em casa…
—Estranho? —Cícera apontou para Jonas.—Este homem consertou minha cerca, meu telhado, minha bica e nunca encostou num prato sem agradecer. Estranho é vizinho que passa 12 anos rondando sítio de mulher sozinha esperando ela cair para comprar terra barata.
Bento perdeu o sorriso por um instante.
—Cuidado com o que fala.
—Cuidado você.
Ela ergueu o papel.
—Porque, além de difamar minhas visitas, você assinou isso aqui. E eu quero saber diante de todo mundo: por que tanto medo de Jonas Ferreira?
O silêncio caiu no terreiro.
Jonas deu um passo à frente.
—Talvez porque ele lembre do recibo falso dos bezerros.
Bento ficou vermelho.
Dona Alzira olhou para ele.
—Que recibo?
—Perguntem ao Seu Raul, da Fazenda Buriti —disse Jonas.—Eu me recusei a assinar. Depois disso, Bento disse que ia me fazer pagar.
Bento tentou rir.
—Palavra de andarilho contra a minha?
Cícera foi até dentro e voltou com uma pasta de documentos. Jogou sobre a mesa da varanda.
—Palavra de andarilho não. Palavra de homem. E se quiser falar de documento, eu também tenho os meus. Aqui está a escritura do meu sítio, no meu nome. Aqui estão as contas pagas. Aqui está meu testamento antigo, sem herdeiro nenhum. E aqui está o novo, que vou registrar amanhã.
Todos se mexeram.
Jonas a encarou, surpreso.
Cícera continuou:
—Não estou entregando minha terra a aventureiro. Estou deixando por escrito que, se algo acontecer comigo, metade deste sítio vira morada e sustento dessas 2 meninas até crescerem. A outra metade vai para quem cuidar da terra com trabalho limpo. E isso não é paixão de velha, Bento. É decisão de dona.
Mariana apertou a mão de Lídia.
Bento cuspiu no chão.
—Você enlouqueceu.
—Talvez. Ou talvez eu só tenha parado de pedir licença para viver.
Dona Alzira já não sabia onde enfiar a cara. Os homens que vieram com Bento se afastaram um pouco, como quem não queria mais estar junto dele na fotografia da vergonha.
—Isso não termina aqui —disse Bento.
—Termina sim —respondeu Cícera.—Termina na delegacia, se você voltar a ameaçar minha casa. E termina na justiça, se o dono da Fazenda Buriti resolver lembrar dos bezerros.
Bento montou no cavalo com pressa pela primeira vez na vida. Saiu sem despedida.
Depois que a poeira baixou, o terreiro ficou em silêncio.
Jonas aproximou-se de Cícera.
—A senhora não precisava fazer isso.
—Precisava, sim.
—Por quê?
Cícera olhou para as meninas. Lídia chorava quieta, tentando parecer forte. Mariana segurava Pipoca como se a gata fosse uma promessa.
—Porque uma casa fechada por medo vira túmulo antes da hora —disse Cícera.—E eu passei 15 anos quase enterrada aqui dentro.
Jonas não disse nada.
Naquela noite, ninguém falou em ir embora. Cícera fez angu, feijão gordo e café fresco. Lídia ajudou na cozinha. Mariana dormiu no banco com a gata no colo. Jonas ficou na varanda, olhando o céu limpo.
Dias depois, ele foi a Sacramento confirmar o tal emprego. Voltou antes do anoitecer.
—Era mentira —disse, parado na porteira.—Queriam pagar comida e chão de galpão. Nada mais.
Cícera cruzou os braços.
—Aqui tem trabalho.
—A senhora ainda quer?
—Eu disse que tinha trabalho. Não disse que tinha mudado de ideia.
Lídia sorriu pela primeira vez sem se esconder. Mariana correu para abraçar Cícera pela cintura.
Dessa vez, Cícera abraçou de volta sem susto.
O povo ainda comentou por algumas semanas. Comentou quando Jonas passou a dormir no quartinho ao lado do paiol. Comentou quando as meninas começaram a ir à escola da vila com vestidos costurados por Cícera. Comentou quando, no domingo, os 4 entraram juntos na igreja.
Cícera entrou de cabeça erguida.
Lídia ia de um lado, séria como sempre. Mariana ia do outro, balançando os pés pequenos e contando que Pipoca tinha ficado guardando a casa. Jonas caminhava ao lado delas, sem tocar em Cícera, sem fazer cena, apenas presente.
No banco da igreja, Lídia sussurrou:
—A senhora está nervosa?
—Não.
—Está sim. Sua coluna fica reta demais quando mente.
Cícera tentou segurar, mas riu.
Foi uma risada pequena, curta, meio enferrujada. Mas foi uma risada verdadeira. Algumas pessoas viraram o rosto. Bento, sentado no fundo, baixou os olhos.
Naquele instante, Cícera entendeu que justiça nem sempre chega como castigo barulhento. Às vezes chega como uma mesa cheia, uma criança chamando seu nome, uma porta aberta depois da tempestade e a coragem de não expulsar o que veio para salvar você também.

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